quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

As despedidas...







As despedidas são momentos da vida com os quais ainda não aprendi a lidar. É que, mesmo quando partimos rumo a um destino aspirado, as despedidas põem a nu, com a clareza do sol e a crueza da verdade mais verdadeira, o insuperável paradoxo da vivência humana; ela tem, lado a lado, como irmãos siameses, a coluna dos ganhos e a coluna das perdas.

A cada nova etapa da vida, deixamos de ser o que fomos e o que somos, deixamos para traz um pouco de nós mesmos. Por isso é que se diz: quando nos despedimos, despedimo-nos também um pouco de nós mesmos.

Para mim essa ocasião tem necessariamente qualquer coisa de mãos acenando; qualquer coisa de palavra reprimida, que se converte em lágrima furtiva; qualquer coisa húmida no olhar. É nela que eu experimento uma verdade ingenua, mas incrivelmente feliz:

Não é a primeira vez que me digo adeus, ergo o braço e aceno para quem parte e quem parte sou eu. Sou eu quem tem os olhos humedecidos no porto e, ao mesmo tempo, sou eu quem tem os olhos humedecidos na nave.

Perdoe-me a humilde vaidade, eu sei que eu sei ser assim, como os poetas me acenando adeus, e parto comigo mesmo acenando-lhes adeus.

Meu irmão, é verdade, se você deixa de ser juiz ou se deixa de ser qualquer coisa, você não deixa os juízes nem deixa os companheiros, você se deixa a si mesmo em algum baú assombrado, tal como se deixou o menino no baú da infância, tal como se deixou o moço no baú do amor, tal como se deixou o homem no baú do trabalho.

Nós, os homens, somos diversos, múltiplos, porque somos sobretudo semeadores de fantasmas. Agora que somos maduros, compreendemos: viver não é fazer outra coisa senão deixar nossas assombrações pelas esquinas do tempo. Ser maduro é ser um monte de fantasmas conservados à naftalina no baú dos nossos guardados mais queridos.

Eu sou quem está guardando o juiz que fui, no meu baú. O juiz é meu penúltimo fantasma, tenho certeza disso, o juiz é minha penúltima aventura exaurida. O juiz que estou guardando, entre as naftalinas do meu baú de guardados, esse juiz é meu penúltimo cântaro vertido.

Mas quero lhes deixar bem claro: não há tristeza na minha despedida; há apenas emoção, que me toca profundamente. Passam-se, na memória, vivências felizes que aqui tive com colegas eminentes, confraternais companheiros, com servidores dedicados e leais – a quem não canso de reiterar profundos agradecimentos.

Como se percebe, meus caros, são muitos os fantasmas que estou guardando no baú do peito e do tempo. Sei que nesta minha passagem também cometi erros, nem poderia ser diferente, mas tenho a consciência tranquilizada, porque sei também que trabalhei para não errar.

Aqui, fiz muitos amigos e penso que não fiz inimigos. Se existe algum, não o conheço; dele nunca tive notícia.

Posso, portanto, afirmar com toda a segurança: a assombração que fica, o fantasma que deixo nesta Casa não é assustador, nem triste, nem sombrio. Não tenho receio, ele quer ser apenas, para sempre, um "fantasminha camarada".

E, agora, é seguir caminho, porque, como diz a canção pantaneira de Almir Sater, “cumprir a vida é compreender a marcha e ir tocando em frente. Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser carrega em si o dom de ser capaz de ser feliz”.

O olhar para trás me deixa emocionado, porque o que vejo e o que levarei na lembrança são somente coisas boas. E o olhar que lanço para frente está cheio de esperança; por isso é que estimo, ao me despedir e partir, que, na contabilidade futura, contra os percalços da vida, não há de me faltar um superávit de ventura no balanço dos dias.

Muito obrigado!

Acerca da autoria:
Este texto não é meu. Ao contrário dos demais textos seleccionados de outros autores que trouxe aqui para o blog, resolvi falar da autoria ao final, e não logo de início. Isto porque, se dissesse lá no alto que se trata de um texto do saudoso ministro do STF, Teori Zavascki, ele certamente seria lido de outra forma. Mas, de fato, apesar de contar com algumas citações ao poeta José Paulo Bisol, se trata de trechos seleccionados de um discurso de Teori, proclamado quando este foi chamado para o STF, no final de 2012. Era uma despedida, portanto, direccionada aos seus colegas do STJ, onde foi ministro desde 2003 até a data.

Como sabemos, Teori faleceu recentemente num trágico acidente de avião em Paraty. Nos deixou não somente a relatoria inicial, e extremamente corajosa, da Lava Jato (o maior caso de corrupção de nossa história), como muitos amigos por onde passou. Este texto nos dá uma dimensão do motivo por ter sido tão querido, talvez na mesma medida em que foi tão discreto.

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