quinta-feira, 28 de julho de 2016

Vespa. A história de um ícone com 70 anos


 

Há 70 anos, o inventor de um helicóptero criava uma estranha criatura, mistura de mota com avião, seriedade e brincadeira: chamaram-lhe Vespa e puseram-na a voar pelas estradas do mundo inteiro.



Quem é que um dia não sonhou ter uma scooter? Quem é que viu Nanni Moretti desfilar por Roma no verão de 1993, montado numa Vespa, e não quis fazer o mesmo em qualquer cidade do mundo? Que adolescente não desejou ter uma para as suas primeiras fugas nocturnas? Pois é, seja em qualquer esquina da cidade, seja nos desejos inconfessados, as Vespas estão em todo o lado. Simultaneamente adoradas pelas massas anónimas e pelos artistas famosos, as pequenas motas tornaram-se um símbolo de juventude, arrojo e alegria de viver. Isto tudo devemo-lo a Corradino D’Ascanio, o homem que devia ficar na história por ter inventado o helicóptero coaxial mas que afinal será para sempre “o pai da Vespa”.

Porém, este objeto de culto, que marcou a história do design, do motociclismo, do cinema e das cidades do século XX, começou no contexto duríssimo na Itália do pós-Guerra. A Piaggio — construtora de navios e depois a principal construtora de aviões italiana — estava de rastos, tal como a economia e as estradas do país. A empresa abandona então a aeronáutica de Enrico Piaggio e decide entrar na indústria dos veículos de massas, inspirado no modelo de Henry Ford: objetos utilitários e baratos que chegassem ao maior número de potenciais compradores.


O visionário Enrico Piaggio com a sua Vespa, em 1956. (Foto: Keystone Features/Hulton Archive/Getty Images)

Em 1944, dois engenheiros já tinham feito um protótipo de uma mota com um escudo protetor na dianteira, que ficou conhecida como MP5 ou Paperino. Mas Enrico não gostava do modelo e pediu ao engenheiro aeronáutico Corradino Ascanio para redesenhar a mota. Problema: Ascanio não gostava de motas. Achava-as feias, barulhentas e sujas. Gostava de aviões, por isso tratou de aplicar ao motociclo os seus conhecimentos 

deaerodinâmica — a sua mota seria como um pequeno avião. Para reduzir o barulho e a sujidade colocou o motor junto da roda traseira. O dito motor, de dois cilindros, atingia a velocidade de 60 km/h, e a mota foi equipada também com uma caixa de velocidades de três mudanças, tanque de combustível de cinco litros de gasolina e um consumo médio na ordem dos 40 km/l. Quando ouviu o barulho do motor, Enrico Piaggio terá exclamado: “Sembra una vespa!” (parece uma vespa). Estava encontrado o nome.

A Vespa foi então apresentada ao mundo na primavera de 1946, no Golf Club de Roma. Os jornalistas que foram ao evento dividiram-se perante a “mota que parecia um brinquedo”: uns ficaram fascinados, outros foram cépticos. Na feira de Milão desse ano venderam-se as primeiras 50 e a partir daí as estradas nunca mais foram as mesmas.


A primeira Vespa nasceu há 70 anos e era assim.

Foram feitos modelos simples para um condutor e modelos complexos para competição. Sendo um veículo destinado às massas, a Vespa nunca deixou de tentar conquistar as elites e a partir dos anos 50, Hollywood veio dar uma ajuda. O filme Férias em Roma (1952), com Audrey Hepburn e Gregory Peck, deu à Vespa uma aura de glamour e cosmopolitismo que nunca mais a abandonaria. No final da década de 50 Marlon Brando também tinha uma e John Wayne, rei dos western, foi visto nos bastidores de um filme a desmontar um cavalo e a montar uma scooter. Nos intervalos da rodagem do colossal Ben-Hur, em Roma, o ator Charleton Heston também passeava pela cidade numa Vespa.

Mas foram Marcelo Matroianni e Federico Fellini que criam o mito, no filme La Dolce Vita. As imagens incrustaram-se no imaginário de uma década e fizeram da mota um símbolo da cultura juvenil e rebelde que teve o seu auge nesses anos. A Vespa fazia parte do mesmo espírito do tempo que o Mini, a minisaia, os Beatles. Até Salvador Dali quis “surrealizar” a Vespa de dois jovens que conheceu em Cadaqués, em 1962. Este exemplar, pintado e assinado pelo mestre do surrealismo, está no museu da Piaggio e será, provavelmente, o modelo mais caro do mundo.


Audrey Hepburn deu à Vespa uma das suas imagens imortais, no filme “Férias em Roma”, de 1952.

Claro que muitas foram as marcas que, em Itália e no resto do mundo, criaram modelos idênticos. A mais poderosa foi a Lambretta que, curiosamente, fazia mais sucesso em Portugal do que a Vespa, ao ponto de todas as motas de modelo scooter passaram a ser chamadas de “lambreta”. Só a partir dos anos 90 é que a Vespa se impôs por cá.

No novo milénio, e depois da bancarrota, a Piaggio renasceu com a recuperação dos seus modelos vintage, em especial o modelo Primavera de 1967, o mais replicado de sempre. O caos do trânsito nas cidades e as preocupações ecológicas têm continuado a fazer das scooter a opção mais viável.

Para celebrar o seu 70º aniversário, a Vespa lançou uma edição especial comemorativa em três modelos: Vespa PX (uma lenda intemporal que, graças à sua caixa de quatro velocidades manual, continua a ser um modelo lendário e inimitável), Vespa Primavera (o modelo que melhor interpreta o espírito jovem e irreverente da gama, agora com ABS nas versões 125 e 150) e a Vespa GTS 300 (o modelo mais desportivo, potente e na vanguarda da tecnologia da Vespa).



Vespa Settantesimo GTS, modelo retro, é um dos três modelos lançados para comemorar os 70 anos da marca.


Autor
Joana Emídio Marques