quinta-feira, 21 de julho de 2016

O novo mapa do cérebro tem 180 regiões em cada hemisfério



O puzzle do córtex cerebral tem, afinal, o dobro das “peças” do que se pensava. Uma equipa de cientistas publica esta quinta-feira na revista Nature um novo mapa que nos pode levar a saber mais sobre as funções do cérebro e doenças mentais.



 David Van Essen, coordenador da equipa científica

Podemos olhar para ele e ver um mapa com centenas de regiões e as suas fronteiras, luzes que se acendem, uma manta de retalhos, um colorido mosaico, circuitos que parecem raízes finas de uma árvore ou cem mil milhões de células nervosas. A verdade é que, apesar do muito do que vemos (e, com o avanço nas tecnologias nas técnicas de imagens, vemos cada vez mais), ainda sabemos muito pouco. Mas não desistimos. Uma equipa de investigadores ligados ao multimilionário Projecto do Conectoma Humano (HCP, na sigla em inglês) apresenta esta quinta-feira na revista Natureum novo mapa do córtex cerebral. A partir de agora, o cérebro humano tem 180 regiões em cada hemisfério.

Estimava-se que o córtex cerebral, a camada mais externa do cérebro que terá entre dois a quatro milímetros de espessura e que desempenha um papel central na memória, atenção, consciência, linguagem e pensamento abstracto, tivesse entre 150 a 200 áreas por hemisférios. Há cerca de cem anos, o alemão Korbinian Brodmann mapeou pela primeira vez o córtex cerebral definindo 50 regiões. Este mapa ainda hoje é usado pelos especialistas.


Novo mapa do cérebro MATTHEW GLASSER/ERIC YOUNG


Agora, uma equipa de cientistas coordenada pela Escola de Medicina da Universidade de Washington (EUA) revelou uma nova paisagem do córtex cerebral que mostra um total de 180 regiões em cada hemisfério. Segundo explicam, 97 destas regiões nunca tinham sido descritas antes e as restantes 83 são confirmações de áreas já identificadas.
“Versão 1.0”

Matthew Glasser, principal autor do artigo na Nature, acredita que o mapa do cérebro não está concluído. Segundo refere numa resposta por email ao PÚBLICO, esta “será seguramente a versão 1.0”. “Sabemos que há determinadas partes do cérebro que o nosso equipamento de ressonância magnética não conseguiu mapear por razões técnicas e que há outras partes que podem ser subdivididas, mas com os dados e as técnicas que temos hoje ainda não conseguimos traçar essas fronteiras”, explica o neurocientista da Universidade de Washington, que espera agora por mais “olhos” focados nestes dados e problemas por resolver. “Esperamos que o mapa cresça com estes aperfeiçoamentos e que a versão 2.0 surja no tempo certo.”

Uma das áreas identificada chama-se 55b e “ilumina-se” quando uma pessoa ouve uma história. Outras parecem guardar o campo de visão do indivíduo ou estão envolvidas no controlo do movimento. Porém, sublinham os cientistas, a maioria das áreas não será identificada com nenhuma função específica, porque simplesmente não fazem apenas uma coisa mas antes coordenam os sinais recebidos pelos diferentes sentidos.

Para fazer este novo mapa, os cientistas recorreram a dois grupos de 120 pessoas saudáveis (de ambos os sexos) e usaram as mais avançadas tecnologias disponíveis que permitem ver e medir as características, arquitectura microestrutural, morfologia e actividade das várias zonas do cérebro. Fizeram-no com várias técnicas diferentes e em contextos diversos, observando o cérebro em momentos de descanso e em tarefas específicas como ouvir uma história. Apoiaram-se ainda nos dados e métodos do Projecto do Conectoma Humano que está a reunir informação dos cérebros de 1200 adultos para construir um “mapa de estradas” cerebral combinando várias técnicas de visualização.

Além das técnicas de ressonância magnética, funcional e outras, inventaram também um algoritmo capaz de encontrar estas áreas em qualquer pessoa. Porque cada indivíduo tem um padrão único e áreas com formas e tamanhos diferentes. Matthew Glasser dá um exemplo ao PÚBLICO e refere que uma das áreas com mais variações é a 55b, que em 90% dos indivíduos tem uma relação com as áreas vizinhas mas que em dois grupos de 5% das pessoas ou se deslocou para outras áreas ou dividiu-se a meio. “Ainda não sabemos o significado disto, apesar de sabermos que esta área está envolvida na linguagem”, diz.
Útil na saúde e na doença

O novo mapa e algoritmo (toda a informação será disponibilizada à comunidade científica) podem ser muito úteis para o estudo e compreensão de problemas como o autismo, a esquizofrenia, demência ou epilepsia, entre outras, e para perceber as diferenças entre estas pessoas e outros indivíduos. Por outro lado, pode também acelerar o conhecimento sobre o funcionamento de um cérebro saudável e promete ainda marcar um novo capítulo na história da evolução do homem, mostrando mais sobre o que faz dos humanos uma espécie única.

Num comentário que acompanha o artigo na revista Nature, Thomas Yeo (especialista em engenharia computacional da Universidade de Singapura) e Simon Eickhoff (do Instituto de Neurociência e Medicina em Jülich, na Alemanha) consideram que este novo mapa é um avanço importante. E desafiam: “Agora cabe aos investigadores usar estes dados, fazer comparações com propostas alternativas de mapas do cérebro humano e preencher estas áreas como informação funcional e relacionada com doenças.”

David Van Essen, neurocientista responsável pelo HCP e coordenador do trabalho de investigação publicado na Nature, acrescenta num comunicado da Universidade de Washington: “O cérebro não é como um computador que consegue funcionar com qualquer sistema operativo e fazer correr qualquer software. Em vez disso, o software – a forma como o cérebro trabalha – está intimamente ligado à estrutura do cérebro – o seu hardware, por assim dizer. Se queremos perceber o que é que o cérebro é capaz de fazer, temos de saber como está organizado e ligado.”

ANDREA CUNHA FREITAS
21/07/2016 - 08:32

PÚBLICO