sábado, 9 de julho de 2016

O dia em que Ronaldo comprou um cão





O dia em que Ronaldo comprou um cão
AFONSO DE MELO08/07/2016 11:05

Quando o capitão de Portugal parou no ar e ficou à espera, quase de perna cruzada, que a bola vinda do pé de Raphael Guerreiro pedisse para ser cabeceada, percebeu-se que a primeira parte fora um desperdício de medo nunca justificado por um adversário definitivamente inferior à seleção nacional

A vitória de Portugal sobre o País de Gales teve um som de clarim. Deitemos para trás das costas o primeiro tempo, monótono e aborrecido, com duas equipas quase apavoradas uma pela outra, um desperdício de tempo para os espetadores - certamente tempo ganho por Fernando Santos e pelos seus jogadores para perceberem que estava ali, mesmo na sua frente, o adversário ideal para garantir mais uma final de um Campeonato da Europa àquele que os franceses teimam em chamar “Le Petit Portugal”.

Vamos diretos para o golo de Ronaldo que foi lindo, lindo, como os amarelos de Van Gogh. Ele está lá no alto à espera do centro de Guerreiro. Podia ter cruzado a perna e tomado um cafezinho enquanto a bola vinha de bandeja, com pastel de nata e palito e tudo. Dois adversários ficaram cá em baixo, tão em baixo que pareciam gnomos. Ou parecia que ele se içava à custa dos adversários, tal e qual se faz no râguebi aquando dos arremessos laterais - os galeses sabem bem o que isso é. Enfim, onde estava Ronaldo não estava ninguém. Ele parou no ar. Como dizia Dadá Maravilha, grande avançado brasileiro dos anos 70, só três coisas param no ar: beija-flor, helicóptero e ele mesmo, Dadá. Agora já há uma quarta: Cristiano Ronaldo.

Do outro lado poderia muito bem estar uma equipa de príncipes de Gales, mas pareceram-me a mim muito amarrotados no seu fato de semifinalistas que lhes ficava largo nas cavas, nas mangas e, sobretudo, nos ombros, incapazes que eram de carregar tanta responsabilidade. Vamos e venhamos: Portugal gastou 45 minutos de medo no Parque Olímpico de Lyon. Não precisava. O adversário estava ali, ainda com mais medo e sem nenhuma razão para o provocar, a não ser essa teia de cuidados com que o selecionador nacional tem rodeado cada encontro da equipa dos cinco escudos azuis na camisola, numa preocupação extremosa de não exibir as suas debilidades, os seus defeitos e a forma de serem explorados, à moda de um avozinho que agasalha o neto num cobertor de papa mal sopram os primeiros frios do outono.

Era preciso sacudir o medo. O mais depressa possível para não deixar que, do outro lado, crescesse uma confiança injusta e injustificada. Era preciso que uma atitude firme não permitisse pôr em causa uma final que, apesar das facilidades do sorteio dos adversários, não pode ser descredibilizada: afinal, quem foi melhor do que Portugal nos jogos em que este participou? A pergunta traz consigo uma resposta óbvia: ninguém! E se há quem consiga afirmar a pés juntos que Portugal não merecia estar na final de domingo, no Estádio de Saint-Denis, nesses arredores tão étnicos de Paris, deixem-me que questione por minha vez: quem merecia? Hungria? País de Gales? Polónia ou Croácia? Talvez a Islândia? Pois…

Quem tem medo… Diz o povo, de Chão de Meninos a Vale do Grou, que quem tem medo compra um cão. Foi isso mesmo que fez Cristiano Ronaldo ao minuto dez do segundo tempo. Comprou um cão e desfez os medos. Apareceu na grande área galesa com a força de um fenómeno da natureza que arrasta tudo na sua frente e destrói barreiras e trincheiras. Escreveu com esse gesto uma página requintada nos cadernos imemoriais do brilho.

Bem puderam os galeses esfolar gargantas com o seu cântico de súplica: “Don’t take me home/ Please don’t take me home…”

Ronaldo não teve piedade dos dragões vermelhos. Investiu contra eles como um comboio em movimento. Um comboio capaz de voar e parar no céu em forma de Super-Homem, deixando-os lívidos, estáticos, quase escandalizados. Podem falar-me do golo de calcanhar à Hungria, mas este, para mim, foi melhor. Trouxe menos arte, mas mais vontade; menos habilidade, mas mais crer; menos encanto, mas mais verdade. A verdade de alguém que queria romper com o movimento confinado das coisas nos seus lugares. Um golo contra o destino, contra a monotonia, contra a moleza. Não se sabe o que aconteceria sem esse golo no preciso momento em que surgiu, mas também pouco importam as conjeturas. Portugal foi, em Lyon, aquele golo libertador como uma madrugada primordial. A revolta do seu capitão foi a revolta de todos os outros. A revolta de um povo que não quer ser triste e se agarra como um náufrago às mais pequenas alegrias que surgem flutuando em seu redor, ainda que tenha de ser o futebol a trazê-las. Foi a revolta das cidades portuguesas no centro das suas praças, foi a revolta dos portugueses nas fan-zones de Paris e de Lyon, foi a revolta de gente que quer tratar a pátria por tu.

Ressuscitado Ronaldo na sua imagem ascendente de Cristo por sobre todo o País de Gales. O Ronaldo maltratado, atacado pela imprensa francesa, que não lhe perdoa um gesto de desagrado ou de desânimo, depreciado por não marcar mais golos, por não dar mais golos aos companheiros, por não se ter imposto nalguns jogos como o melhor do mundo. Foi dele a revolta que pegou a outras revoltas, igual a um fogo que se propaga em campo de milho seco no meio da canícula. Ele foi o exemplo. É com ele que Portugal conta agora, certamente mais feliz, mais ele próprio, para poder vencer o jogo que nunca foi vencido.

No domingo estará lá, em Saint-Denis, de braçadeira. Capitão da malta. Capitão-sem-medo. Porque medo, vendo bem, devia ser palavra proibida na história portuguesa. Não foi com medo que o país se cumpriu. Foi com medo que se desfez…