sábado, 11 de junho de 2016

Chuva Torrencial




(Joan Miro - Escape Ladder)



Entrou no carro debaixo de chuva torrencial. Aviso amarelo, disseram. Coisa pouca. Um vento a agitar as árvores em danças quase exóticas, de loucas, as bátegas a ensurdecerem a música na Antena 2, quem sabe, uns lençóis de água a apimentar a condução. Não tinha um destino. O rumo que traçara era o da vida e nem esse obedecera ao desenho colorido a risos, mãos enlaçadas e tardes longas numa rede sustentada nos coqueiros de uma praia de areia branca e água incrivelmente transparente. Reconhecia o ridículo do rabisco enquanto limpava o rosto molhado com as costas da mão.

Partia. Na bagagem levava tudo menos o que seria de esperar. Sempre dissera que não era de fazer listas. No final, acabava invariavelmente por levar o supérfluo. Tinha na mala um vestido de seda vermelha, um xaile preto bordado a dourado com corações do Minho, umas botas de cano alto que usara para montar, dois vasos com tulipas amarelas, um batôn vermelho, uma adaga de prata lavrada, uma fotografia da nespereira em flor que costumava aninhar pássaros junto à janela do seu quarto e uma rede (quem sabe encontrava dois coqueiros onde pendurá-la).

Sem hesitar, pressionou o botão da ignição, acelerou e fez-se à estrada, rumo ao Sul.



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