sábado, 21 de maio de 2016

Síndrome do Ninho Vazio


Claudio Doggy 



Quando os filhos saem de casa, muitos pais sofrem com a Síndrome do Ninho Vazio.

Quando os filhos chegam, a vida de homens e mulheres costuma mudar radicalmente. Com a presença de um novo membro na família, o casal passa a ter outro papel na vida e na sociedade: eles se tornam pais. E uma criança em casa muda tudo. Altera a rotina, a prioridade com os gastos da família, os rumos da carreira, entre outros sacrifícios. Com o passar do tempo, os filhos crescem e criam asas, alçando voos que, muitas vezes, levam eles para longe. Quando os filhos deixam o lar, pais e mães, que se dedicaram às crianças por anos e anos, acabam se sentindo abandonados, perdidos, sofrendo com a ausência e com a saudade. Sofrimento que pode caracterizar a chamada Síndrome do Ninho Vazio.

A síndrome pode afectar homens e mulheres, mas são elas que costumam demonstrar os sintomas com mais frequência. Segundo a psicóloga Simone Steilein Nosima, “geralmente são as mães que abrem mão da vida pessoal ou do trabalho para ficar com as crianças, comportamento que, em algumas mulheres, pode gerar dependência dos filhos”. De acordo com Simone, entre os sinais mais comuns da síndrome, estão a sensação de vazio, tristeza, dificuldade em retomar as actividades diárias, de voltar ao convívio com os amigos ou com a sociedade.

Átila Alberti



Edileuza sofre com a falta que as filhas fazem em casa, mas teve que aprender a conviver com essa nova realidade e, para isso, conta com ajuda de uma psicóloga.

Para a psicóloga, sentir saudades é normal, já que os pais se preparam para a chegada dos filhos, mas nunca pensam com antecedência na saída deles de casa. “O que preocupa é quando a tristeza causada pela ausência não vai embora, acompanhando os pais por meses sem alívio. Ou então, quando a dor é maior que a felicidade de ver o filho crescido e independente. Isto pode virar algo mais grave como uma doença” afirma a psicóloga. De acordo com Simone, a síndrome pode atingir qualquer um, mas revela que “por experiência, percebemos que se os pais são felizes e a família é estruturada, os filhos também são mais felizes”.

Neste momento, pais e mães precisam retomar suas vidas, buscando encontrar actividades que gostem de fazer como exercícios físicos, actividades culturais, trabalho voluntário, viagens, entre outras. Alguns casais também precisam redescobrir a vida a dois, deixando de ser perceberem apenas como pai e mãe. Ter momentos de lazer juntos pode ajudar. Conversar com os filhos sobre o que estão sentindo também é importante. Isso ajuda a preservar a relação com eles, desde que não haja invasão de privacidade das “crianças”. Se o sofrimento for muito grande, ainda vale a pena buscar o apoio de um psicólogo, que pode ajudar os pais a se recuperarem mais rapidamente, pois, assim, não ficam sofrendo sozinhos. A terapia pode ser iniciada antes mesmo de o filho sair de casa, preparando o emocional para enfrentar a situação.

Superar a situação é uma escolha

Quando o filho sai de casa por um bom motivo, seja para casar, viajar ao exterior ou trabalhar em outra cidade, a aceitação pode ser mais fácil, mas não significa que é menos sofrida. Este é o caso da dona de casa Edileuza Costa Nascimento da Silva, de 55 anos. Mãe de duas filhas, Gisele, de 28 anos, e Bianca, de 24, ela passou por momentos difíceis quando as meninas decidiram morar fora. “Foi muito difícil quando a Gisele se casou, em 2012, e saiu de casa. Fiquei muito mal, magoada. Sentia saudades dela o tempo todo. No fim de 2013, quando minha filha mais nova viajou para estudar e trabalhar na África, também foi doloroso, mas tive apoio para enfrentar melhor a situação”, conta.

Cansada de sofrer, a mãe procurou ajuda. Há três meses, Edileuza frequenta sessões de terapia e já consegue sentir os efeitos do tratamento. “Estou mais tranquila, consigo ver as coisas de outro jeito. Aprendi a conviver com a saudade.” Pensando em tudo pelo que passou, a dona de casa afirma que a dor deve ter sido causada pela dedicação total que deu para as filhas. “Acredito que sofri por ter me apegando demais às meninas. Parei de trabalhar para cuidar delas, dediquei minha vida às duas. Se minhas filhas fossem crianças hoje, eu não deixaria tudo para ficar só com elas”.

Outros exemplos mostram que a Síndrome do Ninho Vazio não é um sofrimento que afecta somente pais cujos filhos já saíram de casa. Este é o caso de outra mãe, que não quis se identificar. Ela vivencia os sintomas da síndrome antes mesmo de sua filha mais nova sair de casa para estudar fora. A filha dela tem 17 anos, se prepara para prestar vestibular, mas a mãe ainda a vê como um ser frágil e indefeso. “Para mim, ela é o meu bebê. É como se o cordão umbilical ainda estivesse ali. Ela é tudo para mim, é o ar que eu respiro. Vai ser uma dor muito grande quando ela sair da minha casa”, lamenta.

A Síndrome do Ninho Vazio assombra ela desde que a filha mais velha deixou o lar, aos 15 anos, para morar com o pai. A mãe conta que também sofreu neste caso, mas que sofre muito mais em relação à mais nova porque a criou sozinha. “Eu fui mãe e pai dela. Tenho um apego muito grande”. Para ela, não há justificativa para a escolha da filha. “Pensei em ir com ela, mas ela não quer. Vejo isso como um pouco de ingratidão em relação a mim. Ela tem tudo, por que quer sair? Por causa de liberdade?”, questiona. A mãe diz ter consciência de que terá de passar por tratamento psicológico quando a filha de fato sair de casa, mas, por enquanto, seu objetivo é “adiar o máximo possível a saída dela”.

A arte imita a vida

Comum na vida não só dos brasileiros, mas em lares de todo o mundo, a Síndrome do Ninho Vazio virou tema de trabalhos artísticos. O filme Ninho Vazio, do cineasta argentino Daniel Burman, mostra, de forma bem humorada, a vida de um casal que tenta se refazer após o baque de ver os três filhos saindo de casa para cursar a faculdade. A síndrome também foi retratada em um trabalho feito pela fotógrafa Dona Schwartz. Entre 2006 e 2011, nos Estados Unidos, Dona fotografou o sofrimento de pais que deixaram de ter a presença dos filhos em casa, mostrando eles nos quartos dos filhos. 
A série completa das imagens pode ser conferida no site da fotógrafa: donaschwartz.com/nestImages.html.


Colaboração: Jaqueline Ribeiro


Paraná online