segunda-feira, 30 de maio de 2016

Estas Pessoas Não Dizem Amo-te.






Paulo Almeida nunca disse “amo-te”. A expressão nunca escorregou pela boca fora e as cordas vocais ainda não souberam verbalizar o quanto ele gosta de Cátia. Namoram há três anos e vivem juntos há sensivelmente um ano e meio, quando ambos fizeram as malas e embarcaram na viagem da emigração, rumo a uma Inglaterra cheia de promessas. Ela para trabalhar como enfermeira e ele como assistente de enfermagem. Paulo ama Cátia. Só que nunca o disse.

O casal conheceu-se quando ainda era adolescente. Na altura da escola secundária e das aulas de surf na praia de São Pedro do Estoril, junto à linha de Cascais. O desbravar das ondas e a areia molhada uniu-os, mas os laços então criados precisavam de maturidade. “O primeiro encontro foi aos 15 ou 16 anos, mas na altura decidimos que não era aquilo que queríamos. Ela sempre foi uma rapariga especial. Eu nunca iria arriscar sem ter a certeza”, conta Paulo Almeida, 25 anos, ao Observador. Está sentado à mesa de um bar cascalense, rodeado de amigos, acabado de chegar de terras de Sua Majestade.

A tão desejada maturidade, essa, chegou com o tempo. Bem como uma segunda oportunidade para concretizar a paixão que não amanso com o passar dos anos. Estiveram sempre em contacto um com outro, pelo que a amizade foi-se estreitando até desembocar nos desafios de uma vida a dois. “Ao longo destes três anos, que eu me lembre, nunca disse ‘Amo-te'”, desabafa. “Para mim, a expressão está demasiado vulgarizada. Acho que as pessoas dizem-no demasiadas vezes e dizem-no sem o sentirem.”

"Também se ama em silêncio. Sei que a maior parte das pessoas tem medo do silêncio. É nesse contexto que se descobre a verdade: acho difícil mentir sem palavras.” 

Maria Rita, secretária, testemunho

“Dizer ‘Amo-te’ tornou-se banal. ‘Eu amo-te’ tanto serve para pessoas como para descontos de supermercados”, concorda Maria Rita*, que está do outro lado de um ecrã de computador. Em conversa com o Observador, digita lentamente os carateres que são usados para confessar que apenas se serviu da expressão uma vez na vida. “Por medo, disse-o à minha mãe.” Já descolou a data aos eventos, mas recorda-se de como tudo aconteceu quando ainda era adolescente: certo dia despertou de um pesadelo, no qual se deparou com a mãe já sem vida e deitada num caixão. Assim que acordou, a mãe confortou a cara pálida e o ar transtornado da filha. “Acho que até gritei [durante o sonho].”

Maria Rita evitou contar à mãe o que tinha acabado de ver de olhos fechados. Tentou não dizer nada, mas não conseguiu. Na sequência dos relatos, o “eu amo-te” escapou-lhe do domínio das intenções. “Sempre me recusei a dizê-lo, nunca achei necessário. Não me arrependo. Naquela altura, foi simplesmente fantástico e fez todo o sentido. Fiquei aliviada e, minutos depois, senti-me um pouco parva”, conta. “Era o momento. Foi o momento.”

Fora da esfera familiar, não há vocabulário que a valha. Diz que já amou, que ama e que se apaixona muito facilmente, mas nunca verbalizou esses sentimentos. Não acredita que seja necessário fazê-lo e delega maior importância aos gestos e às atitudes. “É mais importante fazeres a pessoa sentir-se amada, além de que também se ama em silêncio”, argumenta. “Sei que a maior parte das pessoas tem medo do silêncio. É nesse contexto que se descobre a verdade: acho difícil mentir sem palavras.”



Observador