segunda-feira, 18 de abril de 2016

Relógio sem Ponteiros



Lá em casa, sempre me lembro de ver, pendurado na parede, entre dois quadros, um relógio antigo, que dava horas, apesar de nunca lhe ter conhecido ponteiros.

Sempre que uma hora passava, com os seus sessenta minutos que, impiedosos, não voltavam atrás, o relógio, apesar da sua falta de ponteiros, cumpria a sua missão, anunciando uma hora que partia e outra que se iniciava, novinha em folha, com um sonzinho simpático, mas triste.

Um dia, levei-o para a minha casa. Não fazia sentido nenhum ter um relógio a dar horas numa casa onde ninguém vivia.

Embalei-o numa caixa de papelão, com o cuidado que merecia. Mas confesso que, durante alguns meses, o esqueci, dentro da caixa, escondido atrás de um armário.

Hoje não fui trabalhar. Estou constipada, com o nariz a pingar, de voz rouca, mas sexy, e cheia de vontade de me sentar à minha secretária e escrever. Foi precisamente no momento em que me sentava que percebi que o lugar ideal para pôr o relógio, que estava escondido atrás do armário, era ali.

Pronto, está na parede, mesmo à minha frente. Fica entre dois quadros, para manter a tradição e continua sem ponteiros, o que, a bem da verdade, é preciso que se diga, não lhe fazem falta nenhuma.

Será que é mágico?

Será que é bruxedo?

Não interessa. Dá horas, é bonito e, quando olho para ele, lembro-me dos tempos idos.

Nunca, até agora, escrevi por encomenda. Mas o meu amigo Raul pediu-me para escrever um texto para pôr no blog dele, homenageando um grande amigo nosso, o João Chora, que faz hoje 51 anos. Credo, tanto ano! É que eu ainda só tenho 49!….

Em 5 minutos escrevi um texto, carregadinho de saudade e nostalgia. Se o texto que escrevi fosse passado para um género musical, era sem dúvida nenhuma um “Blues”, tal é a saudade que o sustenta.

Leio o texto à pressa, porque ele o quer postar logo, logo. Tenho a certeza de que a minha cunhada Brígida (é ela que faz a revisão dos meus textos antes de eu os pôr no meu blog) se encarregava de lhe pôr mais uma ou duas vírgulas. Mas não há tempo para isso. O que conta é a intenção!

Gosto tanto de escrever!

Sempre que acabo um texto que me agrada, sinto-me feliz, completa!

Se pudesse, era só o que fazia. Escrevia!

E lá está ele, o meu relógio sem ponteiros, a dizer-me que são 11 horas e que mais uma hora da minha vida está irremediavelmente perdida. Entristeço!

Vou até à janela, para espreitar o dia que amanheceu azul, mas que já acinzentou.

Encosto a cabeça ao vidro frio. Deixo-me ficar assim, por alguns momentos, pedindo a Deus

que ninguém me veja neste abandono e de olhar perdido, vendo aquilo que mais ninguém vê.

Os canteiros começam já a ficar salpicados de frésias amarelas e roxas e o alecrim, ainda tímido, começa a largar um suave perfume.

A orquídea, que para mim é a rainha de todas as flores, pende os seus cachos com orgulho e nem precisa de perfume para ser majestosa. Este ano, a amarela não floriu. Que pena!…

Largo a janela e percebo que estou cheia de uma felicidade infeliz e que eu sei que não é muito saudável.

Volto à minha secretária, afogada em palavras que preciso escrever para me libertar, para tentar conseguir chegar onde eu sei que nunca vou conseguir. Mas não interessa. Como sou teimosa, tento, uma e outra vez. Quem sabe se um dia não chego lá! Quem sabe se um dia não chego ao que é realmente a essência da minha vida.

O relógio sem ponteiros espreita-me de soslaio, avisando-me de que, apesar de não ter ponteiros, o tempo não volta para trás e que eu acabo de perder mais meia hora de vida. Malvado do relógio! Já não sei se fiz bem em pô-lo ali!

Sempre a chamar-me a atenção para aquilo que eu quero esquecer…

Sentada à secretária, com um texto a meio, sou deliciosamente interrompida para uma conversa que inevitavelmente me remete mais uma vez para o passado. Eu e o passado temos uma relação muito estranha! Agridoce…

Ambos gostamos de ficar assim, pendurados no nada, a divagar sintonias que mais ninguém entende.

É como se o passado teimasse em encostar-se a nós e a ficar assim, à espera de uma resposta que nós não lhe podemos dar.

E assim, durante uma hora, saltitámos entre alegrias e tristezas partilhadas, sem realmente nos apercebermos de que o tempo passava e que deixava um rasto.

À minha frente, o relógio sem ponteiros desperta-me para esta realidade, assinalando a hora de

almoço. Hora de largar a escrita e encarar a vida de todos os dias.

Numa corrida contra o tempo, porque o almoço está ao lume, (sempre o tempo!), leio o texto acabadinho de nascer e alegro-me ao perceber que nem todo o tempo é perdido. Ou por outra, às vezes é perdido de maneira agradável. Não volta para trás, mas deixa tatuagens na nossa alma que duram para sempre.

Deixo a minha secretária, mas não deixo de olhar com alegria o relógio sem ponteiros, que me marca uma hora. Uma hora bem passada.


Até sempre !!




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