sexta-feira, 15 de abril de 2016

Marlene Dietrich



 
Marlene Dietrich, "Angel".


Com uma natural aura de diva, mezzo afectada, mezzo blasè, mezzo contralto, ela surgiu no começo da era de ouro de Hollywood. Foi, primeiramente, descoberta pelo apaixonado cineasta austríaco Josef von Sternberg, com quem consolidou várias parcerias, dentre elas "Der Blaue Engel" (O Anjo Azul , 1930), "Shanghai Express" (O expresso de Xangai, 1932) e "Morocco" (Marrocos, 1930) - por este último foi indicada ao Oscar, em 1931. E com o tempo provou ser digna de carregar a classificação de diva. Uma proeza, diga-se. Já que conseguiu destaque num período em que o cinema adoptava uma frota de mulheres que não eram simplesmente mulheres, mas eram uma espécie de força da natureza, capazes de representar todas as expectativas do homem e da sociedade por meio das telas - cumprindo a clássica função da sétima arte numa época em que todos buscavam refúgio da desolação existencial na qual os Estados Unidos se encontravam, depois da crise capitalista.

No entanto, Marlene Dietrich trilhou um caminho cheio de falhas e tropeços até a ascensão de sua carreira. A actriz e cantora alemã cativava a todos com sua voz rouca, com sua beleza e, sobretudo, com sua ousadia. Encantou até mesmo corações petrificados como o de Hitler, que a convidou para protagonizar filmes pró-nazistas. Recusou e o deixou ofendidíssimo. Deu de ombros e virou cidadã americana, bradando aos quatro ventos seu desgosto com sua terra natal e com o nazismo. Considerada traidora pelos nazistas, foi cantar em terras ianques e, mais, cantou para os soldados das forças aliadas.


 
Marlene Dietrich, "Blue Angel".


 
Marlene Dietrich, "Blue Angel".


Atitudes ousadas como esta faziam Marlene Dietrich destacar sua personalidade ácida e intensa. Tinha uma presença tão forte que a impressão é a de que perante ela o resto dos mortais sentia-se submisso e enfeitiçado. Não é para menos. Dona de uma voz singular, de um corpo escultural e dos olhos mais tristes depois de Bette Davis, alcançou merecida fama com seu talento artístico, ainda que este talento fosse explorado num contexto de hiper sexualidade. Mas qual diva não passou por tais dias? E com esta fórmula pronta de Hollywood ganhou notoriedade por manter inúmeras relações amorosas, tanto com homens como com mulheres. Deslumbrantemente feminina, tinha fama de devastar corações desavisados, inclusive de Ernest Hemingway. Nas rodas dos poderosos de Hollywood era conhecida como "amante voraz" e o levantar de uma de suas sobrancelhas era tão temido como deliciosamente sedutor.


 
Marlene Dietrich, "Desire".


 
Marlene Dietrich, "Morocco".


Divas como Dietrich povoavam o imaginário não somente de homens, que insistiam em errar os passos na fidelidade afectiva voltada às esposas, mas também das próprias esposas, que viam nela um exemplo de coragem e personalidade que se fazia notar perante uma sociedade masculina. Era polemica e adorava sê-lo. Um de seus mais geniais comportamentos foi o de ser das primeiras mulheres a usar calças em público, e virou ícone fashion sendo, até hoje, considerada semi-deusa pelas feministas.

Marlene tinha convicções políticas muito bem definidas e frequentemente disparava frases que abalavam as concepções tradicionalistas não só na política, mas também na moda, na indústria do entretenimento e na religião. Uma de suas frases mais polémicas foi dita quando abandonou sua fé protestante, afirmando que "se Deus existisse, ele deveria rever os próprios planos".


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