quinta-feira, 21 de abril de 2016

Bela


Bela, 
como na pedra fresca 
da fonte, a água 
abre um vasto relâmpago de espuma, 
assim é o sorriso do teu rosto, 
bela. 

Bela, 
de finas mãos e delicados pés 
como um cavalinho de prata, 
caminhando, flor do mundo, 
assim te vejo, 
bela. 

Bela, 
com um ninho de cobre enrolado 
na cabeça, um ninho 
da cor do mel sombrio 
onde o meu coração arde e repousa, 
bela. 

Bela, 
não te cabem os olhos na cara, 
não te cabem os olhos na terra. 
Há países, há rios 
nos teus olhos, 
a minha pátria está nos teus olhos, 
eu caminho por eles, 
eles dão luz ao mundo 
por onde quer que eu vá, 
bela. 

Bela, 
os teus seios são como dois pães feitos 
de terra cereal e lua de ouro, 
bela. 

Bela, 
a tua cintura 
moldou-a o meu braço como um rio quando 
passou mil anos por teu doce corpo, 
bela. 

Bela, 
não há nada como as tuas coxas, 
talvez a terra guarde 
em algum lugar oculto 
a curva e o aroma do teu corpo, 
talvez em algum lugar, 
bela. 

Bela, minha bela, 
a tua voz, a tua pele, as tuas unhas, 
bela, minha bela, 
o teu ser, a tua luz, a tua sombra, 
bela, 
tudo isso é meu, bela, 
tudo isso é meu, minha, 
quando caminhas ou repousas, 
quando cantas ou dormes, 
quando sofres ou sonhas, 
sempre, 
quando estás perto ou longe, 
sempre, 
és minha, minha bela, 
sempre. 

Pablo Neruda, in "Os Versos do Capitão"