terça-feira, 15 de março de 2016

O lado trágico da diversão


EMOÇÕES INSANAS: O LADO TRÁGICO DA DIVERSÃO


Falamos de como o tédio, a busca pela diversão, a aprovação dos amigos, a curtição sem limites, adrenalina ou mesmo loucura, empurram os jovens à morte. Não tem diferença entre transar sem camisinha, jogar roleta russa ou dirigir alcoolizado. Maior a busca por emoção insana, maior a tragédia!


Recentemente temos acompanhado algumas notícias que nos deixaram estarrecidos: tanto pela tragédia como também pela forma estúpida e quase insana de como aconteceu. Dos vários episódios noticiados, gostaria de chamar a atenção para três em particular. E à luz destes acontecimentos, fazer uma reflexão sobre uma tendência cada vez mais acentuada na nossa sociedade: a banalização da vida.

No primeiro caso temos uma jovem de 19 anos. A moça frequentava a casa de amigos usuários de drogas, os mesmos costumavam brincar de roleta russa, um jogo insano de rodar o tambor da arma e simular o disparo na outra pessoa. O rapaz que atirou na jovem paranaense disse que “Ela desafiou o amigo se ele tinha coragem para atirar nela. Ele então fechou o tambor e deu o tiro, matando a jovem”.

No segundo caso, temos uma estudante de direito de 21 anos. Fato sucedido em Natal. A jovem estava bebendo com algumas amigas numa curtição “normal” regado a um coquetel de bebidas. O mais curioso é que ela perguntava a uma amiga no WhatsApp se ela podia morrer “beba”, ao que sua amiga dizia “: "Morra não amiga! Tem que aproveitar um pouquinho mais". Horas depois, a jovem perdeu o controle do carro e colidiu contra um pote. O choque foi fatal para a jovem estudante!

No terceiro caso, uma festa promovida por universitários que prometia “pura diversão” em São Paulo. Denominada de “MARATOMA”, uma espécie de circuito alcoólico que premiava quem bebia mais. Lá se destacava um estudante do 4º ano de Engenharia Eléctrica, que morreu de coma alcoólico numa rodada insana e estúpida depois de ingerir 30 copos plásticos de vodka. O absurdo é que antes do evento a vítima postou na sua página social: “Melhor morrer de vodka do que de tédio”. Com o apoio de uma torcida eufórica, gritando o apelido da vítima “Au, au, au, o Lombadinha é animal!”



Algumas perguntas aqui são inevitáveis: Os jovens não amam mais a vida? Brincam com a morte porque sua existência é rodeada de vazio e tédio? Se atiram nos braços da morte buscando diversão e curtição, num verdadeiro coquetel de adrenalina e emoção, tudo por não terem nenhuma perspectiva de futuro? Ou simplesmente se arriscam porque são jovens e inconsequentes?

A ordem do dia é: “aproveitar a vida”. Isso significa viver próximo ao abismo. Como descreveu Nietsche, o homem moderno se joga no abismo dançando. Essa atitude demonstra total descaso com o perigo, tanto as bebidas, como as drogas ou sexo tipo “roleta russa’, o empurram ao desespero. Viver intensamente, quanto mais adrenalina e vibração, melhor. Contudo, o prejuízo deste tipo de conduta nós já sabemos. É imenso e trágico.

Os filósofos falavam que por se temer a morte, buscava-se a sabedoria. Tal senso fazia com que os indivíduos se afastassem do perigo! Karl Barth disse “desejaria tanto viver mais de 1 século. Não que tema a morte, mas porque me extasio com a vida!”. De fato, a vida tem muitíssimas coisas boas para nos oferecer, mas depende do que nós oferecemos a ela!



O psiquiatra espanhol Enrique Rojas nos alerta para o fato de que o “homem light tem um certo atractivo. É radiante e divertido, contudo, depois oferece sua autêntica imagem: um ser vazio, hedonista, materialista, sem ideais, evasivo e contraditório” Sem amor próprio, como pode amar a vida e as pessoas que o amam? Sem amor pela vida, como pode ele respeitar a morte? Sem fé e sem esperança num futuro melhor, só resta a diversão insana para o anestesiar contra a solidão e o tédio.

Parafraseando Rojas, vivemos numa época da indiferença. Se a vida sorri ou se nos impõe sofrimento, não importa. A questão não é voltar as costas para a morte mas apagá-la do nosso psicológico. Ignorá-la, desprezá-la, não pensar no sofrimento e suprimir a dor. O resultado dessa falta de equilíbrio é uma enfermidade neurótica que afecta a maioria dos nossos jovens: a banalização da vida e a trivialidade com o perigo. Perde-se a razão e o senso crítico diante da diversão insana.

Com relação ao item anterior devemos concordar com Freud que dizia: “não é a razão que comanda o homem. O que comanda o homem são forças psíquicas ocultas”. Essa luta interior, uma quase crise de identidade, entre o que a pessoa é e o que ela é cobrada a ser, gera uma armadilha psicológica para os jovens. Sem convicções e sem poder para decidir pelo certo, ele se deixa levar pelas emoções. O resultado é sempre catastrófico. Depois vem o arrependimento. Mas por que não pensou antes?

Schopenhauer afirmava que a vida oscila como um pêndulo de relógio, entre o sofrimento e o tédio. O ser humano sofre por não ter e não conquistar. Busca o objeto de desejo movido pela paixão. E quando o encontra se alegra, usa, e se aborrece e, logo quer outra coisa que o encante! E nesse ciclo ele se perde e só encontra a infelicidade.

Concluindo, vale ressaltar que a vida é um dom e viver é uma arte. Devemos recuperar o amor pela vida, buscar o sentido da existência, algo que nos faça levantar de manhã com entusiasmo. Mas viver requer sabedoria nas escolhas, saber com quem nos envolvemos, ter um olhar crítico sobre as situações que representam perigo. Nada nos impede desfrutar dela com alegria e responsabilidade. A vida vale a pena ser vivida junto àqueles que nos amam. Isso não tem preço!

Prof. Juan Daniel



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