sexta-feira, 18 de março de 2016

O Homem que Não sabia Viver sem Mulheres





Já entrado nos cinquenta, cabelo grisalho, estatura meã, generoso nariz, tez morena. Assim era o nosso homem, recostado no sofá, cigarro entre os dedos, a pensar qual o papel das mulheres na sua vida. As pessoas que mais amou ou viria a amar eram mulheres. Essenciais como o ar que respirava, questionava-se se seria simplesmente amor, admiração ou dependência. Um bocado disfuncional, com falta de jeito para «coisas de homem», habituara-se a ser cuidado. Era por isso que as venerava? Nem por sombras. Recuou o mais possível, ao tempo da sua adolescência e não conseguiu vislumbrar mais de um mês sem ter uma companheira a seu lado. As poucas vezes que isso aconteceu andou perdido como cão sem dono, embebedou-se noites a fio para ter companhia na sua solidão. Certo é que gostava de ser mimado, acarinhado, de ter alguém a seu lado pondo cor no breu que quase sempre o acompanhava. Porquê? Era assim tão inepto que fosse incapaz de estar com a sua solidão? Precisava de ser acarinhado como um bebé? Não era também ele um cuidador? Percebeu então que não sabia viver sem mulheres porque nele existia uma forma feminina de amar.


Diário do Purgatório