segunda-feira, 28 de março de 2016

O Choro


A HISTÓRIA JÁ CHORADA E, QUASE, ESQUECIDA

Eternizado por ser o primeiro estilo musical do Brasil – O Choro – é um gênero da musica popular brasileira formado sobre a imensa capacidade de um povo em se adaptar as adversidades históricas, sociais e culturais impostas aos seus integrantes, com a intensidade e a humildade de seus subúrbios regionais. Muitas vezes negligenciado pela história, pela indústria e pelo seu povo ganhou com a internet força para fazer uma nova história.



Antigos sobrados cariocas, seus casebres e ruas marcados pela pobreza e perseguição intelectual (e encontro motivos para dizer que também teve alguns resíduos de ordem religiosa) dos seus habitantes em constante mutação étnica, criou um celeiro de talentos marginalizados que muitos nem sequer ouviram falar, ou melhor, tocar. Estes nobres artistas fizeram por levar aos outros cantos deste imenso território brasileiro, uma nova expressão musical baseada em toadas de flautas, cavaquinhos, clarinetes, saxes, violões, pianos e outros instrumentos que favorecesse um agrupamento sonoro e ganhou corpo e características regionais nos sotaques e timbres diferentes em ser verdadeiramente brasileiro.

Os ditos eruditos advindos da Europa trouxeram em suas embarcações reais, estilos de vida e músicas ouvidas entre os fidalgos, duques e nas festas da nobreza, logo, a sociedade e as instituições mais abastadas da Colónia, estabeleceram que aqueles sons sim, eram de qualidade. Impossível dizer que de fato não o eram. Logo, ouvidos desprovidos de “boa educação” souberam escutar entre as fretas e portas, o que de melhor se tocava nas altas rodas, e decidiram, por que não, levar música para todos. Na primeira oportunidade, os instrumentos passaram a alegrar festividades e enriquecer os velhos senhores de negros pelo Rio de Janeiro. Com a oficialização da abolição da escravatura, os negros tornaram-se livres no papel, mas não libertos do atraso moral e educacional de um país. Jogados nas ruas, sem comida, trabalho ou moradia, e tão logo, emergiam novos problemas sociais e um novo tipo de moradia, a favela, no caso carioca, os morros. Em 15 de Novembro de 1889, ressoava sem nenhuma luta armada, a República. E o Brasil passou seu poder de uma mão para vários sabres do exército brasileiro, num cerimonial de hasteamento da bandeira nacional de salvação de um povo oprimido. Assaltados desde seu surgimento, o Brasil foi deixando de ser uma população escrava para se tornar servil. Mesmo desordenado o golpe se estabeleceu como forma de governo no país. Neste complexo cenário político e histórico, uma interacção de sons populares, como lundus, maxixes e os sons europeus, fizeram emergir uma nova proposta instrumental brasileira, o Choro.

Melancólico (o que lhe dá o carisma) e com mestres tão ilustres, corro o grande risco de esquecer ou negligenciar algum fato ou autor ao contar sua trajetória. E, embora com receio que cito Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho, Paulinho da Viola e Pixinguinha, estes dois últimos bem conhecidos entre a atual geração, seja do choro ou do samba. 

Pixinguinha tem eternizado na data de seu nascimento 23 de abril, o dia do choro, além de músicas conhecidas: “As rosas não falam” e “Carinhoso”, e Paulinho da Viola, músico ainda vivo e prestigiado pelo valor de suas composições com ares de poeta, não deixa a memória do choro e seus compositores caírem no descaso das massas.

De certo modo, passando, mais uma vez, por um período de ostracionismo histórico, advindo da industrialização e internacionalização das novas batidas feitas por encomenda de mercado, o Brasil coloca o choro para ser tocado em seus bares suburbanos e em espaços de seus admiradores, logo, seu povo se rende as rimas fáceis e produções “brasileramericanizadas” tocados no rádio e na TV. Embora nunca tenha deixado seu estado de parcial esquecimento, em 1999, uma personalidade foi retratada em minissérie da Rede Globo de Televisão, trazendo uma luz sob o esquecimento dos meios de comunicação aos autênticos movimentos culturais tupiquinins. A compositora Chiquinha Gonzaga teve sua vida retratada em 38 capítulos e foi um sucesso de audiência, na ocasião. Mas, nem mesmo isso fez ressurgir a velha paixão dos brasileiros pelo que, genuinamente, é nosso por direito. Por mais emocionante, doloroso e melódico que um dos primeiros estilos musicais brasileiros tenha surgido, sua autêntica alma, no entanto, é muito mediocremente ouvida ou conhecida entre os descendentes diretos de tantas riquezas culturais, nós, os brasileiros. Embora este estilo musical tenha influenciado relativamente o surgimento do samba, o fato é que poucos brasileiros se dedicam em não deixar essa memória se apagar, dando-lhe espaços na literatura e clubes. Tanto que aqui podemos citar o Clube do Choro em Santos, Brasília, Belo Horizonte, por exemplo.

Tocada em modo binário, o choro, vindo do povo e sendo brasileiro, se fez diante de eternas injustiças e de sua diversidade, ressaltando a importância de trazer aos currículos escolares o ensino da música, de maiores espaços públicos de divulgação da nossa verdadeira história e cultura, além de fortificar com fidelidade a história de nosso povo mestiço, e formado sobre tradições pré-colonizadoras e da adaptação de outras culturas sob o aconchego, algumas forçados, na nossa composição. O resgate, não tardio, de nossas raízes, graças ao advento da internet, hoje, é possível que muitas contribuições ainda não escritas, tocadas, ouvidas e divulgadas entre os brasileiros, concedam ao choro seu suspiro de esperança. Tão logo, crie um sentimento mais patriótico que barulhos sonoros, alguns de extremo mau gosto e intenção, para que criar no brasileiro e nas gerações futuras, um orgulho de divulgar aquilo que é realmente nosso. Comecemos a abraçar nossa história e quem somos. Não nos deixemos contaminar pela onda de ódio que assola o país, não cometemos o mesmo erro do passado, quando se glorifica o que vem de fora, se assola e ignora os problemas de dentro. Nosso povo, que teve uma origem tão violenta, nos permitiu ter uma rica herança cultural para vasculhar e conhecer, seja em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Bahia, e seus outros 23 estados, em sua vasta tradição deve ser valorizada e transformada em orgulho nacional e deve ser a base para novas histórias, sejam elas chorosas ou não.

Publicado  por Josy Dinorah


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