domingo, 20 de março de 2016

Não me tirem do sério!







Sempre tive um problema com a falta de coerência.
Tira-me do sério.
Tiram-me do sério as mulheres que participam em manifestação pró-vida e que vão a Espanha fazer abortos “para que não se saiba”.
Tiram-me do sério os supostos defensores da igualdade de género que insistem em manter as mulheres fechadas em casa a cuidar dos filhos e das tarefas domésticas.
Tiram-me do sério os apologistas da parentalidade consciente que pressionam e castigam os filhos para os transformarem em pequenas máquinas perfeitas.
Tiram-me do sério aqueles que enchem a boca para falar dos direitos dos trabalhadores mas que são os primeiros a fugir quando um colega é injustiçado na empresa.
Tiram-me do sério os virtuosos da bondade e do amor ao próximo que vão à missa todos os domingos mas que viram a cara sempre que um mendigo lhes pede comida na rua.
Tiram-me do sério as “mentes abertas” que partilham posts no facebook sobre direitos LGBT mas que escondem, cheias de vergonha, a filha lésbica.
Tiram-me do sério os falsos moralistas.
Tiram-me do sério as cínicas e os hipócritas.

Da mesma forma que me tiram do sério as mulheres que se assumem como feministas mas que olham para o feminismo como um feudo, uma espécie de clube privado onde apenas são aceites meia dúzia de mentes iluminadas com coisas interessantíssimas para dizer ao mundo mas que só querem ouvir-se a si mesmas, em círculo fechado, desrespeitando e apoucando vozes dissonantes como se fossem as donas da verdade. Vedado o acesso à discussão plural.

“Uma mulher católica não pode ser feminista”

“Uma mulher de direita não pode ser feminista”

“Uma mulher inculta jamais entenderá o feminismo”

E eu pergunto: porquê?

Não somos todas mulheres, independentemente do partido com o qual simpatizamos, da religião com que nos identificamos, do nosso percurso profissional e pessoal, do nosso nível socio-cultural, da nossa identidade? Onde fica a coerência de quem pensa desta forma se a essência do feminismo é a luta pela igualdade? Somos todas mulheres e a nossa união é a única forma de traçar um caminho de mudança. Estivemos durante séculos oprimidas por uma sociedade patriarcal que nos obrigou a andar de costas voltadas, uma sociedade que fomentou ardilosamente a desunião entre as mulheres para as conseguir manipular. Encarar o feminismo como um feudo elitista não é mais do que perpetuar a desunião. O corte com este passado de opressão e silêncio só será feito de forma eficaz através do empoderamento das mulheres, da sororidade, da pluralidade e do respeito. Da integração de TODAS as mulheres.

Sou uma feminista, católica não-praticante, de direita – e, por mais que me esforce (desculpem!) – não consigo encontrar nenhuma incoerência nesta equação. À parte do feminismo, a minha maior referência, a identificação com uma força política ou com uma religião nunca toldou o meu sentido crítico. Pelo contrário. Muitas são as vezes em que me indigno e critico publicamente determinadas posições da igreja católica ou do meu partido. E vivo bem com isso.

Através do meu trabalho na Capazes luto diariamente pela defesa dos direitos das mulheres e por uma sociedade mais justa e igualitária. Todos os dias, através da Capazes, aprendo um pouco mais com os artigos que nos vão chegando, escritos por mulheres brilhantes da esquerda à direita. Todas elas têm algo para ensinar e, curiosamente, são as que ideologicamente se encontram mais distantes de mim que tomei como referência.

Todos os dias, através da Capazes, ajudo a dar voz a mulheres anónimas que de outra forma jamais seriam ouvidas, que dificilmente teriam palco para partilhar as suas histórias, para divulgar os seus trabalhos, para mostrar o seu talento. Sinto-me legitimada para representar essas mulheres nas acções de terreno em que participo, sempre consciente da enorme responsabilidade que essa representação acarreta.

Mas a verdade é que só posso fazê-lo porque eu própria fui empoderada por mulheres para as quais o partido com que simpatizo ou a religião que professo não têm qualquer importância. Da mesma forma que não tem importância a cor da minha pele, a cidade onde vivo, a escola onde estudei, os livros que já li, os países que visitei, ou quem se deita comigo na cama. Nada disto me define.

Feminismo é igualdade… e não há nada mais poderoso e inspirador do que a união das mulheres.

De todas as Mulheres


Capazes