quinta-feira, 24 de março de 2016

Dois Tempos:Kronos e Kairos


DOIS TEMPOS: CHRONOS E KAIRÓS


Cada civilização teve sua própria experiência com o tempo. Os gregos, por exemplo, nos transmitiram essa experiência por meio do mito de Chronos (ou Cronos) e Kairós, deuses do tempo. O mito é uma história que, longe de ser fantasiosa, pretende explicar o mundo e o homem por meio de imagens simbólicas que escondem uma realidade profunda. Por isso, antes de ser inteligido, o mito precisa ser sentido. Para compreendê-lo é necessário transcender as aparências e buscar a verdade que nele se esconde. A história de Chronos e Kairós, narrada antes da Era Cristã, é capaz de elucidar sobre como nos relacionamos com o tempo na actualidade.

Chronos é o deus do tempo quantificado, que se pode medir. É o tempo corrente, rotineiro, ordenado pelo relógio, onde um minuto é igual ao outro, onde às horas sucedem-se os dias e a estes os meses e os anos. Representado como um velho tirano e cheio de crueldade, Chronos controlava o tempo desde o nascimento até a morte. Ele ditava aos mortais o que deveria ser realizado. Do nome desse deus se deriva a palavra cronometro que designa o instrumento para se medir o tempo. Portanto, quando falamos de Chronos estamos fazendo menção ao tempo cronológico, do calendário.





No mito, Chronos emasculou o próprio pai com a intenção de se apoderar do mundo. Mais tarde, como Senhor do Tempo, ele devora seus próprios filhos para continuar soberano. Tal imagem nos sugere que o tempo cronológico passa sem que possamos detê-lo e que ele aniquila tudo o que produz. Nada dura para sempre no mundo, nada se pode conservar e a única permanência é a impermanência. Assim, tudo o que é conquistado no tempo Chronos não tem valor eterno.

Na contemporaneidade facilmente percebemos o quanto Chronos amedronta e impera, implacável. Muitos são escravizados por esse deus e acabam devorados. Vivem sob o julgo das datas, dos prazos, da idade que avança impiedosamente, experimentando ascensões e declínios. Tentam dominar Chronos, mas acabam dominados por ele. Mais “mecanizados” buscam cumprir ritmos e metas para além da condição humana e invariavelmente se infelicitam.

Mas ao lado de Chronos está Kairós, o deus da oportunidade, do momento adequado, oportuno. Retratado como um jovem calvo com apenas um cacho de cabelos na testa, ele tinha uma agilidade sem igual, possuindo asas nos ombros e calcanhares. Kairós corria rapidamente e só era possível detê-lo agarrando-o pelos cabelos, encarando-o de frente. Porém, depois que ele passava, era impossível trazê-lo de volta. Devido à sua agilidade podia não ser percebido pelo observador desatento. Isso quer dizer que quando Kairós surge diante de cada um de nós como a ocasião adequada de fazer o que é certo na hora certa, devemos agarrar e trabalhar essa oportunidade - pois caso ela nos escape - não voltará. Dessa forma, precisamos nos tornar atentos observadores das oportunidades cotidianas.

Kairós é o tempo que não pertence a Chronos, portanto, não pode ser cronometrado. Ele simplesmente acontece, sem previsibilidade ou hora marcada. São aqueles momentos que se tornam eternos em nossa vida, mesmo que tenham sido breves. Um tempo interno e essencial que deixa uma impressão forte e única, para sempre, e que sustenta nossos passos na estrada existencial. Em Kairós somos humanos, vivemos e não apenas sobrevivemos!

Os gregos tinham convicção de que com Kairós podiam enfrentar Chronos. Ao vivermos em Kairós as oportunidades em nossa vida aumentam, pois não nos deixamos tiranizar por Chronos: temos a consciência do momento presente, sem os fardos do passado ou a antecipação do futuro, quando podemos ver a oportunidade e agarrá-la, nos posicionando por meio da melhor acção possível no momento. E, de acordo com Anselm Grün, “a maior oportunidade é a vida mesma, pela qual passamos quando tão somente planeamos e pensamos, em vez de vivermos”.

O tempo Kairós nos convida ao despojamento da exagerada e doentia cronicidade para vivermos com mais leveza e autenticidade. É fato que não podemos nos desvincular completamente de Chronos, afinal, o tempo cronológico organiza a vida, mas devemos buscar um equilíbrio entre Chronos e Kairós, conforme destaca Grün: “Ambos os deuses, Chronos e Kairós, no relacionamento correto, pertencem a uma vida plena. Sem planeamento e sem regulamentações temporais não pode surgir nenhuma cultura. A convivência na vida profissional, bem como social e religiosa, está ligada ao tempo mensurável, matemático. Este deveria estar numa sadia relação de tensão com a vida no instante, com o experimentar, o usufruir, o reconhecer oportunidades e ocasiões”.

Absolutamente nada acontece no passado ou no futuro. Tudo se dá no presente, no agora, nesse fugaz instante. Cada momento é pleno de vida, trazendo a possibilidade de compreensão, crescimento e amadurecimento. Experimentamos Kairós quando estamos em harmonia conosco mesmos, sem o peso exagerado de Chronos, na medida certa, cadenciando com a vida como ela é.








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