terça-feira, 8 de março de 2016

Abençoada seja a loucura






Fico envergonhado quando alguém bate palmas no momento em que o avião pousa, quero me esconder na poltrona. Desde quando avião é espectáculo?

Eu fico envergonhado quando o público aplaude o fim de um filme no cinema. O director e os atores não estão ali, para quem?

Nestes dias, caminhando na praça da Encol, a minha mulher pergunta: vamos abraçar uma árvore? Fiquei novamente envergonhado. Como sempre envergonhado.

- Tá maluca? Todo mundo vai me ver abraçando uma árvore, o que as pessoas pensarão de mim?

Como estou errado! Como sou bobo em não ser bobo!

Deveria me envergonhar da corrupção, da violência, da insegurança neste país. Não daquilo que é espontâneo, puro e alegre.

Que os aviões e sessões de cinema sejam ovacionados. Que as árvores sejam abraçadas.

Acabamos nos controlando demais com medo dos outros. Viver com medo é nunca ter nascido.

Abençoado seja o vexame. Abençoada seja a loucura do bem.

A vida precisa de mais entrega, de mais emoção, de mais autenticidade.



Fabrício Carpinejar