segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

UMA HISTÓRIA DA HISTÓRIA DA MARIANA





O mundo é redondo e, noutras alturas, sempre que um deles partia, Mariana achava que não voltaria a ver Joaquim. Mas não. Voltavam a reencontrar-se. Sempre voltavam a reencontrar-se, voltavam a sentir-se na cama até um deles ir embora novamente.

Depois de tantas vezes dizerem “Adeus” e voltarem a dizer “Olá” ao longo de alguns anos (sim, anos!), naquele dia Joaquim ficou deitado na cama dela. Mariana pensou que quando voltasse, ele já lá não estaria. Nem na cama, nem na vida.

Enquanto conduzia, ela reflectia sobre os últimos dias em que dividiu a casa com ele. Percebeu o que queria Joaquim para a vida dele. Ele sabia que ela era uma mulher vivida, madura, com estabilidade e tinha filhos. Não sabia o que os filhos dela poderiam representar na vida que eles pudessem ter. A aparência dela, ainda que de alguma forma o atraísse, não era o ideal de mulher. Não sabia se era ela que ele queria exibir.

Para Mariana, Joaquim não representava o homem magistral fisicamente. Mas tudo ia para além da aparência. Ela gostava do que ele a fazia sentir, o que despertava nela, gostava da companhia dele. Mas também sabia que isso seria muito pouco para o que representa uma vida a dois. Ela queria senti-lo intensamente em mais alguma coisa e não só na cama. E não sentia. Não conseguia.

Ela não se entregava plenamente, ele escondia-se nas coisas que só ele sabia. Ela sabia apenas de algumas. E descobriu porque quis saber o que levava Joaquim a mentir tantas vezes.

Ele tinha metade dela, ela tinha metade dele.

E ela, principalmente ela, não sabia viver a dar metade e receber metade. Ninguém vive com metades.

Mais do que ter sido bom partilharem o mesmo espaço, foi essencial para perceberem que ambos quereriam mais um do outro. Ou que talvez não quisessem mais nada um do outro.

E que culpa tinha Joaquim de querer uma mulher com outra apresentação que não a dela? Que culpa tinha ele de achar que tudo seria mais simples com uma mulher sem filhos? Que culpa tinha ele de achar que com dinheiro pode ter qualquer mulher que não ela? Não tinha culpa. Claro que ele não tinha culpa.

E que culpa tinha Mariana de querer alguém que não a quisesse sobretudo para a exibir? E que culpa tinha ela de pensar que se tivesse mais filhos seria com a certeza de que o pai, seria pai, pai mesmo? E que culpa tinha ela de pensar que o próximo homem a entrar na sua vida, teria de aceitar os seus filhos porque os filhos que ela já tem são também ela? E que culpa tem ela de achar que o dinheiro até pode conquistar um corpo humano, mas que não conquista a alma de ninguém?

Nenhum dos dois tinha culpa.

A emancipação de Mariana foi dias depois, quando serenamente lhe disse pela última vez: “Foi bom, muito bom! Obrigada!” Mariana, quis pôr em palavras abertas o que


talvez ambos pensassem. Depois de anos a manterem encontros escondidos, depois de a sina de cada um os ter deixado livres para poderem viver para além do sexo, eles talvez não quisessem. O tempo de ficarem às vezes tinha passado e o tempo de ficarem sempre não tinha chegado.

Respeitou o silêncio dele que quase nada disse. Joaquim teria certamente algo para dizer, mas não disse. Para ele, foi sempre mais fácil não dizer nada. Ele foi sempre assim, seguia o caminho mais fácil.

Mariana ficou sem saber o que pensou ele durante os últimos dias em que ela também pensou e que por isso estavam ali sentados e não deitados.

Quando Joaquim saiu, ela desejou-lhe com o pensamento que encontrasse uma mulher (ou talvez já tenha encontrado) a quem, desde o início, não mentisse. Porque só assim poderia ser realmente verdadeiro para com ele mesmo.

Mariana desejou-lhe apenas isso. Sabia que se assim fosse, ele viveria sempre bem.


Capazes