terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

UM AMOR DE SANGUE






O meu irmão não é meu irmão. A minha irmã é, mas a outra é só “meia”, como costumam dizer. Somos quatro, até cinco, mas afinal somos só duas. Sim, esta confusão acompanha-me há 30 anos. “Então mas vocês são irmãos?”, “Afinal quantos irmãos tens tu?”.

Eu tenho irmãos. Não importa quantos, porque a única coisa que interessa é que sou mais completa, mais feliz e um bocadinho mais de tudo por ter irmãos. Perdoem-me quem não os tem, este texto não foi escrito a pensar em vocês.

Cada linha, cada palavra é aqui dedicada aos irmãos. Há irmãos que não são de sangue. Há. E muitos. Que nos trazem muitas coisas boas. Há os de sangue, que nos correm nas veias e nos fazem doer o coração sempre que eles sentem dor. Ou que nos enchem o dia com a sua conquista.

Nasci num grupo de três irmãos e mais tarde nasceu a última. Um grupo que envolve três mães e dois pais. Sempre que me aventurava nesta odisseia da árvore genealógica confundia quem ouvia. “Mas afinal és irmã de quem?”, perguntavam. “De todos”, era – e é – a única resposta óbvia.

Com os irmãos não há barreiras. Ama-se incondicionalmente, odeia-se profundamente. Os sentimentos são à flor da pele. Nasceram connosco ou viram-nos nascer e por mais que não queiramos pertencemos uns aos outros, funcionamos como um todo. Os irmãos são um tipo de clã. Dos mais fortes. A familiaridade dos cheiros é a mesma, as recordações são partilhadas, as birras fazem parte e o amor é como bala no peito, arde, dói e faz viver. Quem fizer mal ao nosso irmão, está a fazer-nos mal a nós. Vestimos a camisola do irmão, tatuamo-la na nossa pele. Não é um amor de mãe para filho. Não. É amor de irmão. E não há amor como este.

Partilhamos os mesmos ídolos, temos a mesma educação e somos ao mesmo tempo diferentes. Seguimos caminhos opostos e, ainda assim, encontramo-nos sempre nas pausas. A milhares de quilómetros ligamos, umas vezes mais outras menos, e por muito tempo que tenha passado, tudo acontece como se tivéssemos partilhado a mesa de jantar, com o caseiro prato da casa dos pais, ontem à noite.

O amor de irmão não tem exigências, é simples. Ama-se e ponto. É um amor eternamente infantil. Brincaremos como se ainda fossemos as crianças aos pulos e a correr no jardim dos fundos da casa dos avós. “Tu, realmente, não mudas”, vamos ouvir. E que seja. Que nunca mudemos, que sejamos sempre aqueles miúdos a brincar, outrora a refilar. Que durante os pesadelos acordemos com a certeza que alguém no mundo nos vai proteger para sempre. Sem interesse, só porque nos ama. “Eu estou aqui”, vamos ouvir, mesmo em silêncio. Perder um irmão é perder o chão, é perder parte de nós. É nunca mais ser completo.

Por isso, meus irmãos, que venham daí os motivos de chacota, que venham as traquinices, as cumplicidades das asneiras, as trocas de olhares. Que venham daí os jantares de Natal, os telefonemas da Páscoa, as idas rápidas à outra cidade. Que venha daí este amor, que sempre nos unirá.

Filipa Santos Araújo







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