terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

QUANDO ELES VÃO PARA O PAI





Arranjo-vos a mala. As camisolas, as camisas e as calças enroladas para que o vosso pai não vos vista para um samba de enredo. Esquisitices minhas, eu sei. Mas todas as mães têm direito a ser esquisitas.

O pijama quentinho de cada um e as meias de dormir.
As chupetas e o biberon da noite de Dom Pequeno.
O livro de português da miúda – tem trabalhos de casa.
Casacos, gorros, bolas e brinquedos. As fraldas para a noite.

Vocês pulam à minha volta contentes porque o pai está a chegar, porque vão para casa dele, com ele.

E se ele é bom pai. Deve haver poucos tão apaixonados pelos filhos. Alguma coisa na vida eu havia de ter escolhido bem.

Devia estar contente.

Amo-vos muito, mas ser mãe de todos, sozinha, é incrivelmente difícil e esgotante. Há momentos em que soçobro e penso que não vou aguentar mais meias para dobrar, mais fatias de pão para barrar com manteiga, mais banhos para dar, mais brinquedos espalhados pelo chão, roupa suja que parece que não acaba, birras e lutas, leva para a escola, leva à catequese, leva aos escuteiros, leva ao básquete, leva à festa de anos da Maria e do Manel.

– Ó Mãe, o que é que quer dizer isto?

– Ó Mãe, o que é que quer dizer aquilo?

– Ó Mãe, onde está a minha camisola encarnada?

– A minha chupeta?

– Quero leitinho!

– Tenho fome!

– Dói-me a barriga.

– Ele bateu-me.

São muitos os dias em que penso que gostava de tomar um banho sem ser com uma perna fora da banheira ou comer uma refeição que não arrefecesse antes de cortar a comida de todos ou que pelo menos, o primeiro ainda não tivesse acabado de comer quando eu ainda não terminei de arranjar o peixe do último.

Às vezes canso-me de ser descascadora de maçãs e carregadora de mochilas, enfermeira, psicóloga, cozinheira e professora, e ainda ter que arranjar tempo para preencher montes de fichas da treta com questionários alucinados sobre os vosso percentis, os nossos hábitos e se temos net em casa ou não.

Canso-me de lavar sempre o vosso equipamento de ginástica antes dos meus soutiens, de comer sopa todos os dias e esconder chocolates. Canso-me das malhas nas meias que os velcros dos vossos ténis me fazem, das nódoas em todos os casacos de malha e de nem sempre ter tempo para lavar o cabelo.

É incrível o que vocês comem! Quase todos os dias me sinto uma bimby, mas estou convencida que ninguém dava mil euros por mim.

No outro dia pensei que este fim de semana podia ir ao cinema ou tomar um copo com uma amiga.

Fazer um jantar de que só eu goste e beber sozinha uma garrafa de tinto, também me pareceu no meio da semana, apetecível. Tenho três livros por acabar porque chego tão cansada à cama que, esqueçam!, eu nunca me lembro como chego à cama… Mas sei que chego sozinha. Ou convosco.

Agora que vos pus no elevador, agora que esta casa vai ficar finalmente em silêncio e que a televisão não vai passar o fim de semana inteiro sintonizada no Panda, agora que posso despir as calças de ganga, pôr um vestido giro e sair, não me apetece. Parva!

Quero as vossas mãozinhas à volta da minha cara, as vossas gargalhadas quando vos aperto com beijos, os vossos corpos a invadirem a minha cama e a roubarem-me o edredon, as vossas bocas sempre abertas para pedir comida e mimo, o vosso amor inquestionável que sara tudo e nunca me falha.

Já precisava de cada um de vós antes de me sonhar mãe, sempre precisei de não me sentir avulsa e depois de vos conhecer, tive a certeza que em cada um está o sentido da minha vida.

Sei que vão voltar no domingo e que, provavelmente, na segunda-feira eu já vou estar a reclamar porque não se calam um minuto, porque não me ajudam, não ouvem o que eu digo e passam a manhã a jogar às estátuas. Mas neste momento, sinto-vos uma falta de morte, como se fosse a mim que me tivessem levado o colo.

Sem vocês sou um ser absolutamente insuportável e escangalhado.

Um dia destes conserto metade de mim e pode ser que passe os dias sem vós, a fazer coisas que nunca vos contaria. Um dia destes.


Capazes