quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Os benefícios de “perder tempo”

“Não perca tempo…”, “O que você faz aí sem fazer nada?”, “Levante-se e aproveite o dia!”…. Muitos podem lembrar de suas mães ou pais lhes repetindo constantemente essas frases como se fossem mantras.
Como se sempre houvesse alguma coisa mais importante para fazer esperando à volta da esquina, e quando aparecesse, outra ação transcendental chegaria depois.
Passam-se os anos e a necessidade de ocupar nosso tempo constantemente com coisas importantes produtivas continua a marcar nossa rotina. Do contrário, surge a sensação de que nos escapa o tempo e, exageradamente, a vida.
Para muitos, ocupar o tempo fora do trabalho com atividades de conhecimento, formação e reciclagem pessoal contribui com sensações de estar aproveitando cada segundo, a tal ponto que aquele que não o faz fica sendo o estranho.Durante a infância, surge constantemente a ideia de que o tempo é ouro. E se não tirarmos proveito das horas das quais dispomos, somos preguiçosos ou seremos fracassados.No final, essa mensagem corre o risco de ser traduzida como na vida adulta em comportamentos parecidos com o do Coelho Branco da “Alice no país das maravilhas”. Sempre correndo, sempre atrasado e com alguma coisa muito importante para fazer..Alimentando a hiper-responsabilidade e a intolerância ao tédio“O tempo é a moeda da sua vida. É a única moeda que você tem, e só você pode determinar como será gasta. Seja cuidadoso e não permita que outras pessoas o gastem por você.” 
-Carl Sandburg


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Tarefas e os benefícios de perder tempo

Colégio, piano, inglês, natação, academia, etc… conhecemos longas listas de atividades nas quais algumas crianças  são imersas, as quais fazem com que acabem sua jornada só na hora de ir para a cama.
Em muitos casos, a educação transmite às crianças que devem ser os melhores, os mais produtivos, e sublinha constantemente a ideia de que sempre, sempre, sempre, se pode melhorar. Não há tempo a perder.
Duas consequências podem ser derivadas disso: a hiper-responsabilidade e a intolerância ao tédio.
  • Hiper-responsabilidade: ser responsável é uma virtude. Ser hiper-responsável é uma armadilha do cérebro construída ao longo dos anos, que pode se refletir na maturidade em forma de ansiedade, perfeccionismo, elevada auto-exigência, baixa autoestima, insegurança, culpa e até vergonha.
  • Intolerância ao aborrecimento: não ter a oportunidade de “perder tempo” na infância freia a criatividade e o desenvolvimento pessoal das crianças e dos adolescentes, para mais tarde, se manifestar em adultos como processos ansiosos.
Perder tempo pode ser muito benéfico para os processos de adaptação ao meio e o desenvolvimento de capacidades intelectuais nas crianças. Quando se cresce, essa intolerância aprendida não permite que saibamos estar com nós mesmos.

Muitas pessoas se entediam, simplesmente por não saberem como ficar a sós com seus próprios ecos.

Filosofia 24×7; você se reconhece?

Vivemos em um mundo interconectado. Em qualquer momento e em qualquer lugar podemos realizar tarefas relacionadas ao nosso ócio, nossa formação ou nosso crescimento pessoal.
Cursos, especializações, academias, coisas de casa, escritório, trabalho… Se não fizermos, outras pessoas que compartilham suas atividades em redes sociais se encarregassem de nos lembrar do tempo que estamos perdendo.
Tudo isso constrói nosso dia a dia e alimenta a ideia de que “deveríamos” ser. A filosofia do 24×7 quer dizer estar disponíveis e fazendo “alguma coisa”, sete dias por semana e 24 horas por dia. No entanto, este conceito pode não ser tão bom quanto parece.
É óbvio que a busca da realização pessoal através da atividade e de ocupação é fundamental, mas até que ponto isso é controlável?
No final, para esse tipo de pessoa, é inimaginável e trágico não realizar nenhuma atividade em um dado momento, e ela vê no descanso algo quase desprezível. Na realidade, não se é um inútil por perder tempo.

Experimente não fazer nada

Meditar e relaxar
Estruturar nossa semana em volta de atividades profissionais  e sociais é uma rotina atraente e necessária. Enquanto isso, encontrar momentos para “perder” é muito benéfico para nossa saúde física e mental.
Reservar uns minutos por dia ou por mês para não realizar nenhuma atividade pode nos contribuir com serenidade para desfrutar de tudo isso que realizamos e que deixou de ser satisfatório, para quê?:
  • Para tomar distância daquilo no qual nos vemos arrastados e reduzir o drama.
  • Para evitar a saturação de alguma coisa que começou como estimulante e que se tornou uma carga.
  • Para compartilhar momentos distintos com os que nos rodeiam.
  • Para relaxar o corpo. Reduzir o estresse e a ansiedade.
  • Para reorganizar as ideias e tomar impulso.
  • Para distinguir o importante do urgente.
Mas… como se pode “perder tempo”? Aí vão algumas ideias:
  • Sentar-se para tomar o café ou chocolate e saboreá-lo, não pedir sempre para viagem.
  • Desfrutar de um processo. Sempre que for possível, não enfrentar o resultado à atividade.
  • Escutar a letra de uma de suas canções favoritas sentado no sofá.
  • Cantar no chuveiro e aguentar um minuto a mais debaixo da água.
  • Dedicar um dia de fim de semana a um café da manhã longo e sem pressa.
  • Realizar qualquer exercício de meditação. Alguns não duram mais do que 20 minutos.
  • Se tiver um momento de solidão em casa, aproveite. Não aproveite para se recolher ou reordenar coisas logo num primeiro momento.
  • Se se tiver um animal de estimação, não se limitar a levá-lo para passear ou dar comida. Dedicar uns minutos para acariciá-lo ou brincar com ele.
Se for daqueles que desfrutam da corrente de atividades e precisam dela para seu funcionamento, vá em frente. Mas se de algum jeito sua fonte de satisfação depende do tempo cheio, mais do que da tarefa em si mesmo, dê uma oportunidade ao relógio.
No final, o “tempo perdido” pode ser convertido em ganho pessoal