segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

MITO DE DÉDALO E ICARO



Isabel,deste-me a ideia deste mito,quando fizeste uma publicação alusiva.
Beijinhos 😘


Ao revisar os mitos, encontramos a história da humanidade, com suas imperfeições, erros e acertos; aquilo que nos define como seres divinos e ao mesmo tempo tão frágeis e mortais… essas duas perspectivas da natureza humana se enlaçam nos contos e lendas de todas as tradições. Mas talvez a que nos seja mais familiar, pela herança cultural do ocidente, esteja na mitologia grega. Neste artigo vamos estudar mais um personagem que nos ensina uma incrível lição de vida.




O jovem Ícaro é filho de Dédalo, famoso inventor grego, responsável pela criação do labirinto de Creta, que abrigava o temível Minotauro, criatura que, de certa forma, ele mesmo contribuiu em trazer ao mundo, pois foi Dédalo quem construiu a estrutura dentro da qual entrou Pasífae para ser possuída pelo touro do rei Minos (seu marido), como castigo enviado por Poseidon por ter se negado a sacrificar aquele animal.

Dédalo participou uma vez mais nos mitos gregos quando ajudou Ariadne a tirar Teseu de dentro do labirinto de Creta, logo após este derrotar o Minotauro. Ao saber de sua traição, o rei Minos o aprisionou, junto com seu filho Ícaro e é nesse ponto que inicia nossa narrativa.

Dédalo pensava em um modo de escapar da prisão, junto com seu filho. Percebeu que não teria como fugir nem por terra nem pelo mar, pois ambos eram dominados pelo rei Minos. Começou então a reunir as penas que caíam dos pássaros que sobrevoavam a prisão e com elas pretendia construir asas, pois apenas os céus não estavam sob o domínio do rei.

Laboriosamente fez dois pares de asas, unindo as penas com cera de abelha. E quando estavam prontas, entregou um par ao seu filho Ícaro, com a instrução precisa de que, em seu voo, tinha que cuidar para não subir tão alto, pois o calor do sol derreteria a cera, nem tão baixo, pois a humidade do oceano faria com que as penas pesassem demasiadamente, a tal ponto de não conseguir mais manter-se no ar.

Dédalo voou conforme suas próprias recomendações e conseguiu escapar da prisão. Ícaro, no entanto, fascinado com a possibilidade de voar, foi subindo até um ponto em que a cera de abelha derreteu e as asas desfizeram-se, o que culminou em sua morte no oceano.

Análise do mito

As asas são o símbolo da criatividade e do potencial humano. Embora ambos tivessem asas, Dédalo e Ícaro as obtiveram de formas distintas. Ao passo que Dédalo as forjou, pena por pena, Ícaro as recebeu como herança paterna, ou seja, para Ícaro não foi uma construção, mas sim um presente.

As penas que formam as asas são coladas com a cera das abelhas, criaturas que simbolizam o trabalho paciente sobre a própria natureza. A cera de abelha representa o trabalho e principalmente a experiência obtida por meio desse trabalho.

O sol é a fonte de vida, de alegria; o mar, neste mito, representa os domínios da escravidão, do sofrimento, pois pertenciam ao rei Minos. Aqui aparece o primeiro contraste que nos faz refletir: as asas são forjadas com a soma do espírito criativo aliado ao duro trabalho, em perfeita proporção, ou seja, a visão criativa que se transforma em possibilidade ao ser aliada à experiência concreta. Mas se não soubermos combinar ambos, nosso voo rumo a liberdade plena pode ser duramente interrompido.

Ícaro representa aquele personagem que herdou uma grande capacidade, mas não possui a habilidade para usá-la adequadamente e a esbanja, correndo o risco de que, com seus excessos, possa ser jogado ao extremo oposto. Muitas vezes ouvimos falar desse mito no cotidiano, através dos jovens que herdam a fortuna e influência dos pais mas não sabem lidar com as infinitas possibilidades que isso traz e se lançam em uma vida desastrosa, contrariando todas as expectativas. Não é raro percebermos que filhos de grandes personagens se tornam pessoas que só vivem à sombra de seus pais, sem jamais se tornarem alguém com uma trajectória própria; são lembrados como “o filho de Fulano”.

Outras vezes vamos encontrar este personagem encarnado como alguém de grande talento e potencial, mas que não se interessa em aprimorá-los, nem desenvolver os atributos morais para utilizar sabiamente tal capacidade. Tornam-se assim grandes potenciais encarcerados em sua própria auto-imagem de perfeição, mas que cedo ou tarde caem no tormentoso mar da vida porque não souberam encontrar um ponto de equilíbrio.

Podemos ainda ver Ícaro em um terceiro aspecto, que é a figura do místico que se lança em uma busca espiritual mas ignora as necessidades inerentes à experiência humana para poder atingir a iluminação, ou seja, aquelas pessoas que desprezam o cotidiano e as experiências comuns como uma via complementar para a sabedoria, tão complementar quanto era a cera de abelha em relação às penas, para formar as asas.

E, em uma quarta análise, também nos encontramos com Ícaro através das pessoas que vivem uma vida de fantasias inatingíveis. Estes personagens constantemente veem suas asas serem derretidas e caem de volta na triste realidade, por esquecer de conciliar o sonho com o trabalho para concretizá-lo. Outros cometem o erro oposto ao de Ícaro: o erro de não se permitir voar alto, ou seja, deixam que a humidade do oceano (as experiências amargas da vida) lhes trague o sonho de voar e então a jornada se torna excessivamente pesada, até o ponto em que o próprio mar da vida lhes engole.

Existe um ponto de equilíbrio em nosso processo de despertar que precisa ser conquistado. Um ponto em que nos permitimos enxergar além de nossa própria experiência, mas que amadurecemos essa visão através do trabalho para atingir novos estágios. A experiência humana é repleta de cumes de inspiração e quedas dentro da dura realidade, formando assim uma mistura harmoniosa para alçar vôo em direção à grande liberdade interior, que nos traz infinitas possibilidades.



Revolução Interior