segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016


História das Molduras: O casamento perfeito com a obra de arte


Akhenaton, Nefertiti e as princesas reais 

fragmento de relevo de Tell el-Amarna, c 1350 aC, (XVIII Dinastia)


Em termos gerais a moldura serve como uma protecção externa de determinado trabalho. Sua definição no dicionário é guarnição para painel, retrato e etc. A moldura então, funcionária como um adorno para as obras de arte. Fato é que seja como protecção, seja como adorno, o universo que envolve a moldura é muito mais abrangente e surpreendente do que ponderações em dicionários e conceitos pré-estabelecidos.

A moldura limita mundos, impede-os de se confundirem, cria uma espécie de célula ou cela, abre uma janela, cria um mundo paralelo que vai muito além de sua função tradicional de proteger a obra de arte, delimitar seu espaço arquitetônico ou lhe conferir um ornamento.

Os primeiros indícios de moldura se dão no Antigo Egito. Na ocasião, elas eram usadas para delimitar o espaço da obra, guardá-las do mundo externo. Suas manifestações artísticas giravam em torno esfera religiosa.

Na Roma antiga a moldura adquiriu uma importância para além de simples delimitadora de espaço. A moldura passa a exercer a função de organizadora de espaço e tem o poder de definir um campo de trabalho.



Painel com uma representação de um triunfo do imperador Marco Aurélio;
um gênio alado paira acima de sua cabeça.


Somente nos séculos XII e XIII as molduras começaram a ser pensadas da forma como as conhecemos. Curiosamente o processo de elaboração de uma obra era feito ao inverso. Primeiro se fazia a moldura, em peça única e muito bem acabada. Em seu interior, o espaço em que o artista preencheria com sua arte. Esta técnica dificultava a produção de obras de grandes proporções uma vez que era quase impossível encontrar tábuas com dimensões tão grandes para serem esculpidas.

Até final do século XIV e inicio do século XV, a maior parte das obras eram feitas por encomenda para a igreja. Tais trabalhos eram de grandes proporções e quase sempre eram peças fixas. Suas molduras compunham um conjunto com a arquitetura do templo onde eram instalados e eram confeccionadas pelo próprio artista.


LUCA SIGNORELLI (1445 a 1523) – Madona e criança – Óleo sobre madeira
Com o Renascimento houve uma importante mudança no cenário das artes. Agora, nobres ricos passaram a colecionar obras em suas residências. Essa nova demanda também modificou a produção de molduras. A necessidade de armações portáteis e móveis era eminente. Os novos colecionadores necessitavam, por vezes, transportar esses trabalhos. As molduras passaram a ser cada vez mais elaboradas, tanto no sentido funcional de proteção quanto no sentido estético.


LUCA SIGNORELLI (1445 a 1523) 
– Madona e criança – Óleo sobre madeira

Mas, e o moldureiro? A produção organizada de molduras começou a se efetivar no século XVI. As molduras não eram mais feitas pelo artista. Havia um moldureiro. Um profissional exclusivamente treinado para isso e que passou a ter grande importância nos processos finais de qualquer decoração. No século seguinte, o requinte só aumentava, madeira e gesso eram usados na confecção de molduras. Novos perfis eram criados e a introdução de arabescos dos mais diversos possíveis levou a concepção barroca de molduras que conhecemos. Durante o século XVIII as produções cheias de excesso continuaram e aumentaram, uma decoração opulenta era tudo que um nobre poderia querer o estilo Rococó da aristocracia francesa ganhou destaque.

Aos poucos os excessos e exageros foram perdendo espaço, perfis de molduras mais leves, finos e com influências orientais abriram caminho. Estamos no século XIX, cuja característica principal passou a ser o puro uso da madeira. Os impressionistas do final daquele século colocaram a moldura como uma continuação da pintura.

O século XX presenciou uma infinidade de trabalhos a serem emoldurados. Não apenas pinturas, gravuras, desenhos e fotografias. Novos perfis e novos modelos de molduras foram criados. A forma de montá-los e os materiais utilizados também se modificaram. A moldura passou a ser novamente feita pelo artista. A liberdade irrestrita do final do século XX permitia. Até a exclusão completa das molduras chegou como uma nova onda de produzir trabalhos somente em painéis cujas laterais também recebiam pintura.

Com perfil liso ou cheio de arabescos, a moldura atravessa os tempos metamorfoseando-se num diálogo incessante entre o artista e seu trabalho. Muito além da função de proteger a obra de arte ou delimitar um espaço. Talvez porque a palavra mais importante para a arte contemporânea seja “possibilidades”.

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