quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

ESTOU FARTA DE MENTECAPTOS





Não passa um único dia sem que a comunicação social – seja ela de cá, de lá ou de acoli – divulgue dezenas de casos miseráveis, atrocidades humanas, crimes hediondos, actos de falta de humanismo, ausência de literacia, numeracia, ausência do menor vestígio de lógica ou clarividência. Em suma, falhas graves de inteligência; a tal que, dizem, faz da raça humana uma raça superior – não consigo escrever isto sem esboçar um sorriso no olhar. Na verdade, não há um único dia que não nos entre olhos e orelhas dentro, opiniões e comportamentos que não lembram ao Diabo – literalmente.

Estou cansada de mentecaptos. Cansada de ver à nossa volta tamanha incapacidade de pensar o básico, o essencial, o óbvio. Pior do que cansada, estou exausta, exaurida, estou farta. Farta de tanta estupidez, tacanhez, falso moralismo e cobardia.

De um lado aparecem os que apregoam o bem-querer aos pobres, aos mais necessitados, aos famintos, aos miseráveis, às crianças, aos velhos e abandonados, mas que – notícia aqui, notícia ali – lá se vai sabendo que estão entre os primeiros a trair, a maltratar, a abusar, a violar: a violar o mais elementar dos direitos humanos. De outro, surgem os defensores da pátria, do humanismo, da solidariedade, da tolerância, os defensores de “paz e amor” mas que, grande parte deles, só sossega se vê as armas apontadas – de preferência usadas – sobre sangue derramado em cenários de guerra e imenso terror. Depois, há os que, de colarinho branco ou mangas de alpaca, se apregoam defensores de um outro tipo de crime; os que têm ou deveriam ter por função, combater o crime económico. Vai-se a ver, também aqui há quem o pratique sem qualquer dó, vergonha ou piedade – seja por baixo de panos ou telhados de vidro.

E que tal mudar de disco e passar a ouvir música bem mais consertada? De preferência bem mais concertada. Passarmos a chamar os bois pelo nome. Denunciar as vacas pelo apelido. Não ver Paz onde se esconde a Guerra. Colocar tudo isto sob a agulha certa. Não encapotar ideologias políticas sob capa de religião mal amanhada, benfeitorias mal disfarçadas, tolerância incapaz de auto-calibragem. Há que entender o mal que uns quantos – muitos – se encarregam de aperfeiçoar sem qualquer pejo, dignidade ou altruísmo. A esses apenas lhes importa o seu bem-estar; o resto que se dane, que desapareça, que morra – e, caso se trate de um homossexual, de preferência que seja atirado de um prédio bem alto. As mulheres que queiram votar, que se afoguem. As refugiadas que se violem. As menores vendidas como escravas sexuais. Às mulheres que pratiquem adultério, o apedrejamento até à morte. As que concorram a eleições, sejam derrotadas pelo poder patriarcal. As que ousem enfrentá-lo, que sejam publicamente executadas por decapitação sumária. Mas, como a cobardia impera, a decapitação assume a forma da hipocrisia – forma que, de “engraçadinha”, nada tem, meus senhores. E é por estas e por outras – na verdade, por todas – que estou farta de mentecaptos. Felizmente que há os outros.



Maria Capaz