terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Depois do divórcio




CELEBRAR ESTES RECOMEÇOS com alegria tornou-se, nos últimos anos, prática corrente nos EUA e no Brasil, onde inúmeras empresas organizam festas de divórcio para os recém-separados encerrarem sem drama aquele capítulo a dois. «Pode haver um lado bom no final de uma relação. Não tem de ter sempre aquele peso excessivo que lhe costumamos atribuir», aplaude Pedro Raposo, responsável da Mundial Eventos. Há meia dúzia de anos que a empresa pioneira sediada em Cascais organiza uma despedida de casado por cada 15 despedidas de solteiro, quase sempre encomendadas de surpresa pelos amigos de um dos cônjuges como forma de fazer a catarse. «No início chamavam-me louco, somos um país que gosta de sofrer. Mas o facto é que as mentalidades têm vindo a mudar e está a ser um êxito.»

À parte as festas individuais, já aconteceu a Mundial Eventos fazer despedidas de divórcio conjuntas de casais em ruptura, que vêem na celebração uma via mais suave de anunciarem oficialmente a separação aos familiares e amigos, mostrando-lhes como estão a lidar bem com tudo. «Há striptease, dança do varão e actividades ao ar livre para quem quiser elevar a autoestima», diz Pedro Raposo. «Jogos libertadores como o lançamento das argolas ao corno ou de dardos contra a imagem do “ex”. Bolos fracturados em que um dos bonecos sai vitorioso e o outro acaba sem cabeça ou caído de bruços no massapão.» Também já tiveram festas com muitas lágrimas, a funcionar tão bem como terapia que resultaram em reconciliação. «Acima de tudo, há que ter sentido de humor para ultrapassar esta fase difícil.»


Dados recentes do Instituto Nacional de Estatística dão conta de 22 525 divórcios em 2013, que fazem de Portugal o segundo país da União Europeia com mais rupturas (74 em cada cem casamentos), apenas ultrapassado pela Letónia (77 no mesmo número de uniões). A experiência pode ser decisiva para repensar o futuro, luxo que até então muitos desconhecem, sublinha a sexóloga Marta Crawford: «Em terapia vemos como se chegou àquele ponto, se é possível a reconciliação e, não sendo, como sair bem da relação.» Ainda que não se consiga uma reabilitação do casal, ambos terão oportunidade de gerir as mágoas para que não interfiram no amor pelos filhos e no próprio bem-estar – algo que a actriz Gwyneth Paltrow e o músico Chris Martin resolveram na perfeição com a sua separação consciente (consciously uncoupling).
«Quando um casamento chega ao fim já muitas guerras emocionais se travaram, muitas discussões e desequilíbrios de parte a parte», justifica Teresa Andrade, louvando a maturidade que coloca Gwyneth e Chris no ponto em que estão hoje: mais unidos do que nunca enquanto família depois de um casamento de 11 anos, os dois confiantes, bem-sucedidos e já com namorados novos. «É possível encontrar mais paz de espírito, mais verdade, mais capacidade de ter equilíbrio emocional. O divórcio deveria ser o fim de uma guerra em que não há realmente vencedores, antes pessoas que deram uma à outra a possibilidade de voltarem a ser felizes de outra maneira.»

Segundo a psicanalista venezuelana Mariela Michelena, especialista em rupturas por experiência profissional e pessoal – soma três casamentos e dois divórcios –, é indispensável limpar o coração de inutilidades sempre que um amor acaba, de forma a abrir caminho ao novo. «Precisamos de chorar, relembrar o amado, viver a dor. Enquanto sofremos, vamos enfrentando a perda, até que a dada altura aceitamos a realidade de ter de seguir em frente com a nossa vida.» A prática diz-lhe que ser abandonado talvez seja pior do que abandonar: além do vazio, a pessoa sofre o choque de lhe ser apresentada uma situação irreversível, da qual terá de se recompor. Por outro lado, quem deixa começa a sofrer muito antes de dizer ao outro que têm de falar. Ninguém abandona o companheiro sem sofrer a sua parte. «Perdemos muitas coisas com um divórcio, mas ganhamos muitas mais quando arriscamos virar a página», conclui Mariela, para quem não serve de nada vivermos agarrados a uma ilusão: «Percebemos que a vida continua e nos deu a hipótese de nos reinventarmos. Descobrimos novos interesses, novos gostos, uma nova imagem.» Assumimos finalmente o controlo de nós mesmos, em lugar de vivermos em função do outro e de uma relação que já não funcionava. E com o tempo acabamos por reconhecer que foi o melhor para todos. «Estar sozinho é muito diferente de estar abandonado. Existe muito prazer a retirar destes momentos a sós.»


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