segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CORRE MIUDA,CORRE






Sem saber o motivo exacto dou comigo a observar as pessoas que me rodeiam a qualquer momento. Mal acordo venho para este escritório de onde vos escrevo. Enquanto fumo um cigarro e espero que o autocarro passe, surpreendo-me sempre por estar cheio às 07:30 da manhã. Entretenho-me a imaginar onde trabalharão aquelas pessoas, que metro vão apanhar, o que fazem. Vão lá dentro a mulher-a-dias, o amanuense, o reformado que vai tratar de tudo pessoalmente às finanças. No trânsito gosto de olhar para quem está a meu lado na fila. O homem do carro de 120.000 euros, o velhinho com boina que leva a sua senhora à consulta, a mãe com os putos ensonados. Para todos eles imagino uma «estória», família, sucessos e fracassos, dramas e comédias que nos compõem a vida.

Depois existem aquelas personagens que secretamente admiramos como a gordinha que corre à volta da rotunda.

Não terá mais de 35 anos, cabelo com puxo, fato de treino largeirão. Todos os dias corre à volta da rotunda. Não sei se por razões de saúde, simples vontade de correr, para limpar a alma. Continua rechonchuda e persistente. Roda, roda sem parar, todas as manhãs. Admiro-lhe a tenacidade, pois faça sol ou chuva, ela corre.

Há mais de um ano que a observo. Não sei porquê sinto sempre alegria de vê-la corada, resfolegante, sem parar. Já pensei bater-lhe palmas, dar uma palavra de incentivo, mas temo ser mal interpretado. A corrida dela é uma metáfora para a minha vida; sempre a mexer-me sem verdadeiramente sair do sítio.



Diário do Purgatório