terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

As alegrias do divorcio







Quem disse que um divórcio não pode ser bom?

É o momento mais temido na vida de um casal, com lutos dolorosos, mas se há tempo para chorar e sentir a perda, também o há para crescer e recomeçar. Quem disse que um divórcio não pode ser bom?

Foi um «sim» para a vida inteira, na saúde e na doença, até que a morte nos separe. Um caminho de planos comuns, muitas certezas, até de filhos. Então o amor acaba e apanhamo-nos numa cama vazia onde antes se aninharam dois corpos, a comer chocolate às escondidas, sentindo o falhanço por aquela separação devastadora. Será que resta alguma coisa agora, para lá dos lenços amarfanhados de lágrimas? Da casa calada porque o outro pegou nas suas coisas e saiu? Especialistas no assunto garantem haver muitas e boas alegrias a retirar de um divórcio, se soubermos encarar o processo como o início de uma nova forma de liberdade, não como o fim. Para começar, não ter de dividir o roupeiro com ninguém é já um ponto a favor.

«Todos os lutos pressupõem perdas irreparáveis, dores, lágrimas e, com o tempo, também adaptação, amadurecimento e novos ritmos de vida, com outras coisas boas a surgirem», adianta Teresa Andrade, psicóloga clínica formadora na área do luto e do divórcio. Se é fácil? Não, confirma. «Ninguém casa a pensar na separação, embora por vezes seja esse o caminho a que a vida a dois conduz.» Cabe-nos a nós decidir se ficamos a culpar o «ex», eternamente presos ao passado, ou aproveitamos a sensação libertadora de se estar de novo solteiro para crescer, investir em experiências diferentes, mimarmo-nos e reencontrarmos o nosso centro. Até ao dia em que voltamos a sentir-nos disponíveis para o amor, outra alegria que o divórcio nos reserva.

«No fundo, a separação é a fase terminal de uma doença grave no casamento e o mais difícil para as pessoas é assumirem que a relação não funcionou. É terem muitas memórias do que passaram juntas e pena do que se perdeu. É reconhecerem que não conseguiram o que desejavam e aceitarem isso», diz. À semelhança de um jogo de Bingo, será ótimo fazer o pleno e encontrar a cara-metade quando menos se esperar, mas ninguém sensato pode estruturar a vida em função desse futuro a dois que pode ou não chegar, como se fosse apenas meio ser. Saber estar sozinhos connosco mesmos é mais uma das alegrias conquistadas no processo, a par da paz de espírito, de se poder comer cereais a todas as refeições se bem nos apetecer e de ver o mundo a regressar positivamente ao seu lugar após a reviravolta.

«O que se ganha é essencialmente a compreensão de que nada na vida é garantido nem permanente. Tudo pode mudar, mesmo quando não o esperávamos», aponta a psicóloga, enumerando vários pontos a favor de uma separação: aprende-se a valorizar o que se tinha – e voltaremos a ter um dia; aprende-se a compreender que a vida é complicada e o outro nem sempre é como gostaríamos que fosse; aprende-se a deixar para trás as certezas e a apreciar o que existe à nossa volta. «Ganhamos maturidade, autonomia e capacidade de viver bem, mesmo quando não temos companhia. Ficar sozinho é dos receios que mais incomodam a humanidade desde sempre, mas apenas quem enfrenta os seus piores medos pode vencê-los.»


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