quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

VIAGEM



Aparelhei o barco da ilusão 
E reforcei a fé de marinheiro. 
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro 
O mar... 
( Só nos é concedida 
Esta vida 
Que temos; 
E é nela que é preciso 
Procurar 
O velho paraíso 
Que perdemos). 

Prestes, larguei a vela 
E disse adeus ao cais, à paz tolhida. 
Desmedida, 
A revolta imensidão 
Transforma dia a dia a embarcação 
Numa errante e alada sepultura... 
Mas corto as ondas sem desanimar. 
Em qualquer aventura. 
O que importa é partir, não é chegar. 

Miguel Torga 


Porto de Abrig