sábado, 9 de janeiro de 2016

SOU ASSIM




Nunca fui uma menina, uma mocinha, uma mulher padronizada
trivial, segundo moldes, banal, corriqueira, comum, adaptada
pois jamais senti atracção pelas coisas insípidas e restritas
pelas vivências fraquinhas, acinzentadas e todas certinhas.
Rendo-me a amores avassaladores, de orgasmos arrasadores
com cenas de amor resolvidas entre murmúrios e soluços
que me sufoquem e me tirem a voz, completa e visceralmente.

Eu desejo e aceito da vida o que ela possui de belo e de inferno
e informo-vos que não habito nela para que gostem de mim
mas dela faço parte, para aprender a amar e a valorizar
acima de tudo e com consciência plena, cada bocadinho meu.
Aproveito, apenas, aquilo que me acrescenta e me aumenta
e desprezo, ponho de lado, o que me empobrecesse e decresce
pois não entendo atitudes comportamentais, que não devo rotular.

Adoro escrever, fazer poesia, expô-la, desventra-la e descara-la
para que sintam, tal como eu, o paraíso, as trevas, o delírio
numa mente poli-facetada, numas mãos que não me obedecem
espalhando por aí o que querem e o que sabem que aquece.
Sou dramática, comediante, intensa, transitória, de fases, imensa
e guardo um amor, que de tão forte, me deixa exausta e gasta
sobrando-me a escrita como libertação, aconchego e compensação.

Sendo eu como sou, peço-vos, não me venham com meios termos
com pode ser, mais ou menos, talvez, entre as nove e as dez
cheguem antes ao meu corpo com alma, fracturas e tripas de fora
de rastos, quase moribundos, no entanto, verdadeiros e inteiros.
É nesses que eu invisto, ajudo, socorro, salvo, tudo dou e acredito
porque o sofrimento humaniza e suaviza todos, naturalmente
sem interessar as razões dessas novas atitudes, dessas alterações.

Agradam-me as coisas exageradas, alegrias efusivas, incontroladas
os olhares faiscantes, sem cancelas, provocadores e fuzilantes
os gestos impensados, as palavras loucas e soltas pelos atalhos
que disseram não a estradas, preferindo cambalhotas desalmadas.
Acredito em fossas, em Mindanau, em verdades e profundidades
e tenho medo das alturas, do distante, das altitudes e das lonjuras
mas não fujo e nem evito os abismos, com ou sem condicionalismos
pois são eles que me revelam a minha extensão e autêntica dimensão.

O que me interessa nisto tudo, e especialmente no domínio do Amor
é o que ele adiciona e ou subtrai de mim, sem o mínimo pudor
quando a carência, a ilusão da auto suficiência eterna me prende
e me veste de uma solidão caduca, dura, maluca para minorar vazios.
Ele, o amor, rouba-me essa capacidade intrínseca para qualquer um
tirando-me, à força, a armadura que controla a minha vulnerabilidade
julgando que faz de mim o que quer. Tal não sucederá, asseguro-vos
pois sei muito bem onde quero estar e estou, e por esse trilho, não vou.

Então, larga-me, solta-me, desata-me, esquece-me, liberta-me, de vez
porque eu sei viver sem ti, sem as tuas predisposições e imposições
que só me espartilham, desmotivam, me embaçam e embaraçam.
Saí, para sempre, estouvado, demente, animal quadrado, desmiolado
que supões ter toda a gente nas tuas garras, aguçadas e apuradas
mas comigo estás totalmente enganado, porque eu não sou pautada
então vou cantar, viver, dançar e soltar-me, sem liberdade condicionada.



Ausente do céu