sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

SETEMBRO





… quanto mais envelheço, mais pueril é a luz mas essa vai comigo.


Nesses dias distantes eu vagueava pelas matas

enchia a espingarda de chumbo e disparava

contra o silêncio das árvores altas

só para assistir ao espectáculo dos pássaros em debandada

experimentava uma exaltação—de que tenho hoje pudor

perante imagens que partem:

fragmentos rápidos, passagens, segredos que se apagam

nesses dias distantes nem suspeitava

a vida pode ser interminável


o que deixaste abandonado regressa aprende-se depois

quando, por exemplo, a esquecida infância se parece com

certos cães deixados de propósito a muitos quilómetros que

ladram não se percebe como à porta da velha casa


Poema de José Tolentino Mendonça, ilustração de Jorge Ulisses, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.





José Tolentino Mendonça ,in Estúdio Raposa