domingo, 10 de janeiro de 2016

Pássaro Azul de Bukowski


O PÁSSARO AZUL DE BUKOWSKI


O autor achou na escrita o seu caminho, sua válvula de escape. Buk dispensa um herói em suas histórias e se torna o poeta da realidade. Da realidade muitas vezes triste e desajeitada.



O velho safado não é nem de longe a única face de Bukowski. Além da obscenidade, sua solidão, angústia e decepção diante do ser humano fez com que alguns leitores se identificassem rápido com o poeta. Todas as humilhações que Buk sofreu, principalmente por parte do pai, foram importantes para ser quem ele se tornou. Charles Bukowski nasceu na Alemanha, mudou-se para os EUA e publicou livros como: Factotum, Misto Quente, Mulheres e Pulp. Viveu na parte miserável de Los Angeles onde conheceu os típicos personagens de suas obras: prostitutas, perdedores, pessoas sem rumo, assim como ele. Em um mundo onde é difícil gritar nossos desejos, Buk não mede palavras ao falar sobre sexo, bebida e mulheres. Ao invés de sessões de psicanálise, Bukowski expressa toda sua sexualidade, libidinagem, desejos e instintos mais íntimos através da literatura. O autor achou na escrita o seu caminho, sua válvula de escape. Buk dispensa um herói em suas histórias e se torna o poeta da realidade. Da realidade muitas vezes triste e desajeitada. Alcoolismo, corridas de cavalo e prostitutas... só quem já teve consciência da necessidade de preencher-se com algo diante do vazio existencial entende o poeta e compreende que o vazio e a falta de sentido da vida são aspectos difíceis de serem vividos e aceites.
Bukowski demonstrava grande fascínio pelo existencialismo. Em um de seus mais belos poemas, "Pássaro Azul", Buk nos coloca frente a frente com o sentimento de inquietação e angústia:


Há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas sou duro demais com ele. Eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja. Há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas eu despejo uísque sobre ele e inalo fumaça de cigarro e as putas e os atendentes dos bares e das mercearias nunca saberão que ele está lá dentro. Há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas sou duro demais com ele, eu digo, fique aí, quer acabar comigo? (…) Há um pássaro azul em meu peito que quer sair mas sou bastante esperto, deixo que ele saia somente em algumas noites quando todos estão dormindo. Eu digo: sei que você está aí, então não fique triste. Depois, o coloco de volta em seu lugar, mas ele ainda canta um pouquinho lá dentro, não deixo que morra completamente e nós dormimos juntos assim como nosso pacto secreto e isto é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e você ?


Mas o que seria essa angústia? Que tipo de inquietação Buk nos revela nesse poema? A angústia surge do sentimento do "encontrar-se aí". Este "aí", não diz respeito a uma localização espacial, mas à facticidade da nossa existência no mundo. É um sentimento que surge bruscamente sem que saibamos de onde vem e para onde nos empurra, onde nos vemos diante da nossa precariedade e do nosso desamparo. Eu diria em resposta à Bukowski que todos nós carregamos o Pássaro Azul, uns se aproximam mais dele, outros mantém um certo distanciamento. A angústia faz parte da condição humana, é algo ameaçador que está sempre "aí". Aquilo no qual nos angustiamos é o próprio mundo. É bem verdade Buk, eu diria, que o mundo que a angústia revela-te é um mundo estranho no qual você nunca sente-se em casa. Porém, não tenha medo de assumir seu pássaro azul. A alegria de viver, dizem os psicanalistas, não aspira à eternidade, ela suporta e convive com a angústia, na qual o tempo insiste em nos empurrar. Bukowski estava certamente consciente de que "os bons escritores" não escreviam daquela forma. Felizmente, porém, resolveu ser Bukowski, ser ele próprio e não tornar-se qualquer outra ideia de bom escritor. Sartre, grande filósofo existencialista, admirado por Buk e outros gênios escreveu "O que vou fazer com que a vida fez de mim?". Bukowski teve coragem, ousou ter seus próprios sentimentos, soube viver com valores que descobriu dentro de si e expressá-los na sua forma pessoal e única.

Gisele Gonçalves

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