quarta-feira, 20 de janeiro de 2016





Ontem cheguei à Sala de Espera e penso que pela primeira vez desde há muitos anos, não tirei da carteira o meu e-reader. Neste momento estou a ler "El crimen de Amagansett" de Mark Mills.

Fiquei ali a observar as caras dos doentes que eram muitos, mais do que há um ano atrás. Já não haviam lugares para sentar porque os que eram chamados pelos médicos oncologistas, enfermeiros e hospital de dia (quimioterapia) levantavam-se e já haviam outros doentes que entretanto tinham chegado.

A maioria dos utentes eram quase todos da terceira idade. Talvez um pequeno número mais novos. Estou a referir-me a uma sala que deve ter cerca de duzentos lugares sentados fora os que estavam de pé.

Na minha frente estava uma senhora velhinha numa cadeira de rodas com uma acompanhante que cuidava dela com carinho e que conseguia interpretar os "grunhidos" da senhora.  Tão velhinha e a ter que andar naquelas andanças...

Quatro cadeiras do lado esquerdo estava uma utente a dormir e dei por mim a pensar que seguramente já a tinham chamado e ela não tinha ouvido. Mas não, vi ela levantar-se de repente e encaminhar-se para o lado dos consultorios. Deviam te-la chamado.

Não se vê ninguém a chorar. Não se chora para não incomodar. Também não se vê doentes a conversar. Estão todos atentos às chamadas e a olhar para os monitores.

Colheita de análises-Senha 30- gabinete 8... Senha 31- gabinete 9... Senha 32- gab........Ao mesmo tempo outro chamamento com voz estridente: Senhora Dona Maria Teresa Figueira de Castro Chagas - Hospital de Dia e outra voz: Maria Isabel Figueira- Gabinete 8 (é a voz da médica), logo a seguir: Senhor António Almeida Ferreira - Sala de cateteres. Quase ao mesmo tempo uma voz femenina chama: Senhora Dona Maria Fernanda de Ornelas Pereira- Sala de Tratamentos. Apitos e mais apitos e mais apitos. Entretanto aparece um anjo da guarda a perguntar se queremos chá, café, café com leite, bolachas ou pãozinho. Depois aparece outro anjo a oferecer rebuçadinhos para adoçarmos a espera.

Cada vez há mais doentes oncológicos.


Texto de minha autoria


"Enquanto houver vontade de lutar haverá esperança de vencer".