domingo, 17 de janeiro de 2016



O Silêncio do Ocidente

A DESCENDÊNCIA

Se outrora fomos os pais da nossa civilização, hoje somos os seus filhos ingratos. Ontem lutávamos por ela, protegíamo-la, defendíamos os seus valores. Hoje esperamos que faça isso por nós. E já nem acreditamos nos valores que criámos. Achamos que são indiferentes, iguais aos das outras civilizações. Mas dar valor a uma coisa é oposto a considerá-la indiferente. A indiferença tolerante poderá acabar por matar o mundo ocidental. O excesso de tolerância pode pôr um fim abrupto às sociedades da tolerância.

CIVILIZAÇÃO DO CONHECIMENTO

Alguns seres humanos deram à luz uma civilização magnífica. É a civilização da arquitectura jónica e da filosofia, da medicina moderna que desafia a morte, das ciências exactas que nos deram a tecnologia e nos ensinam do que são feitas as estrelas. Da Democracia, do Direito e das Humanidades. De Jesus Cristo e de Aristóteles, de Leonardo e de Beethoven, de Victor Hugo e de Einstein. A vida longa e terrível desta civilização começou na Mesopotâmia e atravessou continentes, impondo-se agressivamente às outras culturas. A impetuosidade violenta da juventude deu lugar à ponderação da maturidade. Agora com menos privações, acaba por ser mais moderada e tolerante. Celebra a humanidade. A civilização em que vivemos construiu, à custa do seu crescimento atormentado, e à custa de gerações de cientistas e filósofos, um abrigo contra a escassez, contra a ignorância e contra a intolerância. Mas esse abrigo está em perigo de desabar.

UMA CRUZ NO PAPEL

Dantes éramos adultos e lutávamos pelos valores dum mundo humano, laico e tolerante. Hoje somos crianças grandes, sentadas em frente a um ecrã, e esperamos que a civilização lute por nós. O nosso contributo?… Pagamos impostos e pomos uma cruz num papel que se enfia na urna. Chamamos a isto participação e dormimos sobre o nosso destino. Estamos confortavelmente instalados no presente. Confundimos a defesa da democracia com o conhecimento das intrigas dos governantes. Lentamente, esta confusão apodrece os alicerces da nossa cultura.

SANGUE DILUÍDO

É politicamente incorrecto dizer que o fundamentalismo islâmico é a maior ameaça à nossa cultura. Por isso é que achamos muito bem estarmos calados até que as vozes dos fanáticos jihadistas falem mais alto. Os senhores e as senhoras do politicamente correcto não vão poder comer o seu caviar demagógico durante muito tempo. Se acham que todas as culturas e discursos são legítimos, é porque não acreditam na democracia. Ou confundem-na com indiferença. Mas democracia é o oposto de indiferença. O que acontece aos neutros é que ganham a cor dos que não o são. Tentem misturar água com sangue, e não terão água, mas sangue.

XENOFOBIA

Somos acusados de “xenofobia” e “racismo” quando queremos explicar os factos, dizendo algo como “este atentado do dia X ocorreu porque…”. Parece que nos devíamos limitar a dizer coisas óbvias como: “este atentado ocorreu no dia X”. Estas acusações, com que a nossa própria cultura nos ameaça, impedem-nos de pensar e censuram todas as tentativas de especular livremente acerca das origens das tragédias. Não podemos sequer dizer que é o Corão que origina estes “mal-entendidos” catastróficos. Muitos apontarão o dedo, dizendo: Preconceito xenófobo! Decerto nem leu o Corão! O Islão é uma religião de paz! Temos de dizer que é o petróleo que está na origem dos problemas e, nesse caso, muitas cabeças acenarão afirmativamente. Só podemos especular se for contra a nossa sociedade. Ela não é certamente inocente. Mas tem um perigoso complexo de culpa.

DIFERENÇAS CULTURAIS

Não admito que tantos justos se sintam culpados por dizerem a verdade. Não admito que os injustos sejam constantemente perdoados porque “Ah, são diferenças culturais”. Não admito que se transforme a vítima no opressor, e que, ainda por cima, se diga que o opressor é a vítima. Grande parte dos muçulmanos fanáticos desprezam-nos. Não nos desprezam apenas por sermos os infiéis que vão parar ao inferno (como é literalmente dito centenas de vezes no Corão). É porque somos fracos e nos desprezamos a nós próprios. O que mais se pode esperar dos que desconfiam da legitimidade dos seuspróprios valores?

DEFENDER A HUMANIDADE

A globalização reduziu as distâncias virtuais, acelerou a História, e poderá fazer com que a civilização colapse ainda na nossa geração. Por isso, nunca foi mais importante a união, a afirmação dos nossos valores humanísticos e da nossa identidade cultural. Na civilização do conhecimento, devemos defender a humanidade e recorrer ao conhecimento para sobreviver. Fazê-lo chegar às crianças de todo o mundo é a melhor maneira de defender a humanidade.
O FIM DA HISTÓRIA

É possível que o mundo do fundamentalismo islâmico se torne mais humano, mais tolerante e mais esclarecido. Mas também é possível que um mundo humano, tolerante e esclarecido se transforme em fundamentalismo islâmico. Um dia, se a Civilização Ocidental não tiver caído, olharemos para trás e veremos, assombrados, como tudo esteve por um fio. Se cair, não olharemos para trás, porque a História terá desaparecido.


Maria Matos Graça