quinta-feira, 21 de janeiro de 2016


Não perceber nada de mulheres.



 



Estou a ler «Mulheres» de Bukowski. É reconfortante entender que como eu, também o poeta e romancista não entendia o sexo feminino. O livro é um relato cru de Henry Chinaski – alter-ego de Bukowski - de 50 anos, que após uma eternidade de solidão e abstinência, até de um certo desinteresse, devido à fama literária crescente se vê envolvido numa série de casos amorosos que passam a marcar o ritmo da sua vida e escrita.

Chinaski tem uma visão muita vezes chocante das mulheres, usando-as e deitando-as fora. Confessa que amou apenas uma mulher que se embebedou até à morte e inconscientemente mantém dentro dos seus afectos mulheres extremas, que vivem como ele num limbo entre o consciente e inconsciente, deixando-se dominar pelos instintos mais primários.

As boas mulheres, sem problemas, amantes fiéis, cuidadoras do seu alcoolismo, são-lhe inúteis porque lhes falta a ânsia da vertigem.

A Katherine sabia que havia algo em mim que não era salutar, no sentido em que é salutar aquilo que nos faz bem. Eu sentia uma atracção por todas as coisas erradas: gostava de beber, era preguiçoso, não tinha um deus, política, ideais. Estava instalado no nada; uma espécie de não-ser, e aceitava-o. O que não configurava uma pessoa interessante. Eu não queria ser interessante, era demasiado difícil. Aquilo que realmente queria era apenas um espaço ameno e enevoado onde viver, e que me deixassem em paz. Por outro lado, quando me embebedava punha-me aos gritos, enlouquecia, passava-me dos carretos. Um comportamento não batia certo com o outro. Pouco me importava. 

CHARLES BUKOWSKI, «MULHERES», PÁG.135

Diário do Purgatório