domingo, 3 de janeiro de 2016

'MORTE': DE JOEL NETO. DESDE LISBOA

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Eloy Fernández  Clemente, que ha completado este año la trilogía de sus memorias, es un gran enamorado de Portugal y un constante lector y rastreador de publicaciones lusas o brasileiras en la red. Esta mañana, ojeando prensa, ha encontrado este texto del 'Diario de Lisboa' y me lo manda con esta nota: "Te mando esta cosilla que sale hoy en la prensa lisboeta, un primor de los que tanto gustas y escribes".

Diario de Noticias. Lisboa, 29-12-15
MORTE
por Joel Neto
Combinámos de véspera, ao telefone. Ela investigou toda a vida numa área sobre que eu talvez queira escrever um romance. Tem livros e opúsculos para me mostrar. Eu tenho perguntas para lhe fazer.
- Credo, se eu o deixava vir a Odivelas - diz. - Isto é um ermo. Diga-me onde está, que vou ter consigo.
Protesto, pensando nos seus 85 anos. Eu vou a Odivelas. Mas ela não quer: apanha um autocarro para aqui, um eléctrico para acolá. E, ademais, gosta de vir à Baixa.
Combinamos na Padaria Portuguesa. Lembro-me das suas palavras: "Sou uma velhinha muito enrugadinha e curvadinha." Mas a primeira coisa que eu vejo são os seus olhos azuis metálicos.
Falamos durante três horas. Da investigação dela, do seu percurso de vida - fascinante, inesgotável. Mostra-me os livros.
- Nunca tive marido. Nunca quis. Se tivesse tido, a minha vida não teria sido tão interessante.
Sorrio. Pergunto-me se poderia convidá-la para o Natal. Sei que vai passar o Natal sozinha. Mas, quando afloro o tema, diz:
- Vou fazer o meu bacalhau e ficar no quentinho. Antigamente ainda punha músicas de Natal, agora já não tenho paciência.
Percebo que, se a convidar, não apenas a ofendo, mas ponho-a perante um dilema que a fará passar o Natal como não quer, ou então sentir-se mal passando-o como quer.
Vive bem sozinha. Sempre viveu. A única coisa é que, no prédio de oito andares 
onde vive, nenhum vizinho aceitou ficar com a chave do seu apartamento, para ir procurá-la quando deixar de aparecer. Chegou a afixar um cartaz no átrio - nada, acham uma responsabilidade.
Ela sabe que morrerá sozinha, mas a ideia de ficar a cheirar mal aos vizinhos inquieta-a.
Já foi na semana passada, o nosso encontro. Ainda não parei de pensar nele. No dia em que restar uma só diferença entre o campo e a cidade, será essa: no campo, haverá sempre alguém para ficar com a chave de um vizinho que vai morrer só.

*La foto es Eduardo Gageiro y está fechada en Lisboa en 1950.
Antoncastro.blogia.com