sábado, 23 de janeiro de 2016


MARIA LAMAS por Filipa Guimarães




PRIMEIRO, AS SENHORAS!
MARIA LAMAS (1893-1983)

Foi escritora, tradutora, jornalista, e conhecida activista política feminista. Hoje é comum vermos mulheres que conciliam trabalho e filhos, independência financeira e opinião própria. Como se já estivesse tudo feito. Sabemos que não é assim. Entre as portuguesas que lutaram pela condição feminina destaca-se MARIA LAMAS. Ela antecipou, nos remotos anos 50, a questão do (s) feminismo(s) vinda nos já distantes anos oitenta para a Europa. Através das suas múltiplas e variadas acções, textos, reportagens, percebemos as causas e os sintomas de um Portugal que ainda não aprendeu totalmente a lição. Vale a pena conhecer este exemplo de ser humano, que não abdicou de nenhuma faceta de ser mulher. Sem medo, desafiou mentalidades com o poder do conhecimento que ela própria conheceu no terreno, como repórter. Da sua variadíssima obra, que inclui desde a escrita de poesia, romances, livros e contos infantis até à tradução das tão lidas “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar, que conheceu no seu exílio parisiense, destaca-se, entre nós, a reportagem etnográfica “As Mulheres do Meu País” (publicado em 1950) a quem chama de “irmãs portuguesas”. Percorreu Portugal, conheceu os diversos e desiguais universos socioeconómicos das suas conterrâneas. Dividiu-as por província ou por tarefas: as mulheres do mar, as camponesas, as operárias, as empregadas e as domésticas. Sobre estas últimas, escreve: “O fato de se isolar a mulher numa existência limitada às tarefas domésticas, considerando incompatível a sua função de esposa e mãe com a realização plena como ser humano, não contribui para a valorizar nem a torna feliz.” Mesmo numa altura em que já havia universitárias em muitas áreas, a jornalista denunciava a mentalidade de então: “Fora do exercício da profissão não evoluem nem contribuem para um maior esclarecimento humano.” Porquê? MARIA LAMAS defende que “perante um casamento vantajoso desistem do curso”, lamentando que elas não combatam pela sua independência, muitas vezes por medo da desconfiança e até hostilidade das outras, “como se fossem inimigas perigosas”.

O juízo social, mesmo entre mulheres, era um entrave a combater, entre muitos outros. A luta contra a inferiorização da mulher, capaz de feitos que poucos homens conseguem, torna-se o motor da sua vida. Porque conheceu os seus dramas e anseios, de perto. Elogia aquelas que, tendo ficado viúvas, separadas dos maridos ou dos pais, têm a coragem de ser libertar e agarram o papel do homem: “tomam nos seus ombros a direção da casa, dos negócios e, por vezes, até a profissão”. Dá exemplos de portuguesas que não só salvam negócios de irem à falência, como os desenvolvem e conseguem ter resultados superiores aos dos homens. Ser mulher era difícil, mas MARIA LAMAS não se conformou. E ainda bem. Porque as suas batalhas ainda não acabaram nem foram, entretanto, desonestamente esquecidas. Fica a sua vasta obra cultural e literária como testemunho daquilo que ainda representa.

“Sejamos boas e honestas, generosas e, acima de tudo, inteligentemente mulheres”, escrevia num editorial do “Modas e Bordados”, que era muito mais do que uma revista. Como bem lembrou a jornalista Elina Guimarães, n´ “O Diabo”, em 1935, esse suplemento de “O Século” “falava muito mais do que técnicas e modelos de lavores. Falava dos problemas das mulheres e do que ia sucedendo pelo mundo.” Foi a revista feminina mais lida em Portugal entre 1912-1977 e era lida por várias gerações de diferentes classes sociais. Mas não a única de que fez parte. Tentemos só imaginar uma mulher entre homens a dirigir uma publicação, a criar a sua própria estratégia profissional, a chamar a si as responsabilidades. Sempre atenta à vida privada das mulheres, que com ela se correspondiam, em desabafo.

Como ela própria disse “o jornalismo foi apenas uma escola”. Não lhe interessavam as escolas e correntes literárias, mas os livros. Aqui, conhecemos o seu lado mais pessoal e até íntimo. Em “Para Além do Amor” (1935), preocupa-se, antes de mais, em “ser sincera e ser Mulher”. Dito e feito. A temática deste romance interessa a qualquer um(a): refere a angústia de conceber sem retirar prazer do sexo, dos casamentos sem amor. Nunca responsabiliza o homem, mas a sociedade, os governos e os partidos, voltados para uma cultura desigual e machista. Daí a razão para o seu ativismo político e cívico num país repressivo, autoritário e profundamente injusto para com as mulheres.

Mas MARIA LAMAS não se fica por esta luta política: “a vida não é apenas força, direito e justiça. A vida também é sentimento e amor.” Entre condecorações, reconhecimentos públicos, escolas com o seu nome, ruas e uma biblioteca, a sua obra (17 livros!) precisava de um segundo fôlego. Maria Teresa Horta, que a conheceu bem, recorda-a como uma mulher igual às outras da sua época e do seu meio socioeconómico: “Elegantíssima, bem vestida, muito bonita, com um toque de classe, com o seu colar de pérolas” (…) “Ao começar a falar é que ficava diferente”, diz a escritora.

Esta feminista de corpo e alma casou duas vezes, separou-se, viveu do seu trabalho. Teve três filhas, 13 netos, 26 bisnetos e 2 trisnetos. Morreu aos 90 anos, pelo que a sua família já deve ter, entretanto, crescido bastante.



Por Filipa Guimarães
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