domingo, 17 de janeiro de 2016

LENÇÓIS BORDADOS






Lençóis bordados. Meia hora depois de ver aquela mulher que balançava o guarda-chuva do outro lado da rua, tudo o que eu conseguia pensar era em lençóis bordados. Em quinze minutos de conversa, aquela menina no nariz afilado não havia parado de falar, e quanto mais ela falava mais os lençóis bordados me vinham a mente. Depois daqueles quinze minutos de conversa, eu só queria levar aquela mulher pra casa, fazer amor com ela, acordar no dia seguinte, fugir, casar e mandar bordar nossas iniciais nos lençóis. Simples assim. Em apenas quinze minutos aquela mulher com cara de moleca que roubou a roupa da mãe e saiu pra trabalhar simplesmente elencou, de maneira simples e até ingênua, suas qualidades. Qualidade estas que eram – sem tirar nem pôr – uma lista do que eu sempre quis em uma mulher. E enquanto eu falava dos motivos pelos quais meus namoros anteriores não deram certo, ela ia, aos poucos, mostrando não apresentar em seu portfólio pessoal de defeitos, nenhum daqueles que haviam sido motivo de rusgas e rompimentos anteriores. E eu pensando nos lençóis…

Conforme a conversa progredia, eu ia tendo cada vez mais a impressão de estar falando com um espelho. Um espelho infinitamente mais bonito, mas um espelho. A cada gosto, vontade ou desejo revelado, mais uma afinidade era descoberta: crianças, cães, casas, fotografia, liberdade, viagens, literatura, enfim, só não foram mais afinidades por falta de tempo. E esqueci de falar, amigos, que esta mulher aí de cima, é simplesmente uma das mulheres mais bonitas que já vi em meus trinta anos. Fisicamente irresistível. Fisicamente. Vou parar meus devaneios psicológicos e falar dela fisicamente. A pele branca, o nariz afilado e o cabelo liso, escuro, dão a impressão de que ela saiu de um quadro renascentista. Já os olhos, nem mesmo Machado de Assis os teria feito justiça em uma descrição. Olhos maduros, responsáveis, mas ao mesmo tempo lascivos, parecem estar se aproveitando da minha tagarelice pra entrar em mim e descobrir tudo.

Mas em um dado momento o medo tomou conta. E se não foi recíproco? E se estas afinidades não foram tão valorizadas por ela quanto foram por mim? E se, ao invés dos lençóis com as iniciais bordadas, ela estivesse apenas pensando que acabou de ganhar um amigo com quem ela tem muito em comum? Apenas um amigo. E se aquela mulher com tudo o que eu sempre quis, me achou só um sujeito engraçado, nada mais? Bom, sempre posso tentar vender os lençóis bordados para alguém com as mesmas iniciais que a gente. Mas melhor guardar por um tempo.




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