terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Isto hoje acaba bem.



Isto hoje acaba bem [Titulo da responsabilidade do editor]




Ele disse-lhe ternura. Ela deu-lhe um beijo e mil palavras cantadas. Ele respondeu-lhe com um poema de toda a vida e uma flor. Assim começou a mais longa de todas as suas conversas. Num piano de cauda alguém tocava uma música suave. Algum ruído de fundo e muito fumo. Tudo lhes passava ao lado. Estavam entregues um ao outro. Estavam numa fuga sem mapa. Desconheciam ainda que caminho ia ser aquele.

Quando o homem do piano deixou de tocar, beberam o último gole e saíram para a vida. A rua era pouca para eles. Tal a euforia que deles transbordava. O ar enchia-os de leveza. Beijaram-se. Foi numa corrida, sem aparente razão, que apanharam o táxi mais importante de toda a sua vida. Se fosse um filme teria como título “Um Táxi Para a Felicidade”.

Acordaram ainda leves e a cheirar a fumo, envoltos em lençóis lavados. Um cheiro de corpos que se iam conhecendo. Um novo beijo. As mãos que não sossegavam. O primeiro banho tomado juntos e uma espuma de desejos. Que será feito daquela banheira. Daquela casa pequena e acolhedora. Como estará agora o seu interior. Foram-se aprendendo. Foram crescendo juntos, como se estivessem a nascer de novo.

Por vezes passavam à porta daquele bar mas sempre tiveram receio de lá voltar a entrar. Já não bebem. Ele já não fuma. Os charutos estragaram-se numa caixa sem futuro. As bebidas foram dadas. Ficaram apenas com uma garrafa de Martin’s 20 anos e outra de Moet & Chandon, para não esquecer de todo o que foram. Só para memória futura. Sabem, porque disso ganharam experiência, que nada se repete, que nada seria igual. Renovam a vida, renovando-se. Aprendendo novos mundos e novas vidas. Como cresceram os seus meninos de antigas relações. São as suas únicas medalhas. As verdadeiras vitórias das suas vidas. Nem tudo foi fácil. Amparando-se um ao outro foram empurrando a vida. O dele já tem cabelos brancos a aparecer. A dela já teve um menino a que chamam deles e não tarda acaba a primária. Tinham o menino dele e a menina dela, quando pensaram que tinham juízo para terem um deles. Acharam, no entanto, que já era tarde. Afinal os que tinham pertenciam aos dois. Chegavam.

Sentem-se complemento um do outro. Ele vive no sonho. Ela chama-o à realidade, embora nunca lhe corte as asas de sonhar.

Gozam com as maleitas um do outro. Os ossos da vida a darem de si. As dores coloridas pela idade. Uma dor e um sorriso. Chorar para quê? O remédio do costume. Por vezes já rabujam. Coisas que passam depressa. Tentam não se magoar, mas nunca deixam nada por dizer. O mais pequeno de todos já goza com eles.

– Olha que coisas bonitas estás para aí a dizer hoje, nem pareces tu.

Fala da regressada Isaurinda, depois de eu lhe ler o que ia escrevendo.

– Obrigado, minha querida.

Respondo-lhe.

– Olha que há coisas aí que me parecem familiares.

De novo Isaurinda.

– É normal, todas as vidas coincidem em determinados pontos.

Digo-lhe.

– É, mas essa é muito bonita e tem pouca discussão. Olha eu gostava muito do meu homem, mas tínhamos discussões.

Reage a Isaurinda.

– Sabes, hoje só me apetecia falar de coisas bonitas.

É agora a minha fala.

– Estás feliz! Ainda bem. Fico contente.

Dá-me um beijo e vai-se embora, a nossa Isaurinda, o pano sempre na mão.

Isto hoje acaba bem. Um dia havia de ser.

Jorge C Ferreira Jan/2016(66)



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