sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

HÁ DUAS ÉPOCAS NA VIDA, INFÂNCIA E VELHICE, EM QUE A FELICIDADE ESTÁ NUMA CAIXA DE BOMBONS

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Banksy





Ser criança é sonhar 
Ir a lua a cantar 
E mesmo que caísse 

Teria alguém para me apanhar

Bruno Miguel



Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

Manoel de Barros     






A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.

Adélia Prado



Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o 'humour'?

Carlos Drummond de Andrade




Naquele tarde tudo foi risos no parque de diversões. O carrossel com seus cavalos que correm sem sair do lugar, subindo e descendo. A paciência de minha mãe de responder com um sorriso aberto ao meu aceno todas as vezes que o brinquedo rodava. Ao ir embora levava comigo a  pipoca quente com manteiga derretendo, a bengalinha de plástico vermelha , branca e dourada feliz por ter tido aqueles momentos de encantamento. Mas na esquina tinha o homem com os balões de gás, tão coloridos que não conseguia olhar para mais nada. Queria muito aquele vermelho! Minha mãe me explicou que para tê-los eu precisava ser mais forte, minha mão era muito pequena para segura-lo. A resposta foram lágrimas e ela então cedeu. A felicidade foi instantânea, e fugaz. Não consegui prender o balão nos meus dedos e ainda hoje sinto a dor de vê-lo escapando lentamente , subindo ao céu e se perdendo dos meus olhos. O homem quis me dar outro, minha mãe não deixou. Como era sábia a minha mãe!





consolo da praia - drummond