quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

FUGA






Ela só queria se sentir um pouco mais segura e que a sensação que iria se quebrar cessasse. É que ela tem medo do quanto pode ficar exposta se deixar alguém ver sua alma, vai que depois essa pessoa não quisesse mais ficar, o que ela faria? – Era o que Clarice pensava enquanto olhava as estrelas deitada no chão do quintal de sua casa, uma das coisas que mais gostava de fazer.

Sentia-se tão perdida, aprendeu desde cedo que se envolver era uma coisa complicada, que seria mais fácil curtir o momento e depois fugir, como sempre fez, mas ela sabia que não dava para fugir sempre, sabia também que não era de vidro, mas porque é tão difícil se permitir sentir e dizer certas coisas?

Desejava ser pequena outra vez, e assim poder só deitar no colo do pai e chorar porque tinha machucado o joelho rodando bicicleta e não chorar porque não sabia o que fazer e tinha medo de se machucar. Tem medo do amor, medo de crescer, medo de não conseguir realizar os seus sonhos, medo de todas essas regras sociais, do sistema do qual faz parte e que dita o que desejamos vestir, comer, escutar, assistir, como se fossemos todos uns bonequinhos, medo de chegar um momento em que fique insensível a dor do outro, porque dessa forma seria menos doloroso, e porque sabemos que desejamos estar bem de toda forma, e acabamos passando em cima de uma coisa ou outra para isso.

Clarice sentia que sua cabeça iria explodir com tantas questões e foi por isso que ela preferiu só pegar o fone de ouvido e escutar música e depois abrir o facebook, porque como sempre, ela achava mais fácil fugir. E na verdade tudo era fuga, a música, a cerveja no domingo, as festa, a TV, as redes sociais. Uma fuga da gente, uma distração.






Borboletas e Nostalgia