segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

EVOCAÇÃO


Pedro Homem de Melo – “Evocação” (De Eugénio de Andrade)


03.01.2016




Ao café de S. Paulo, quantas vezes,
Outrora fui buscar-te!
Sentíamo-nos ambos portugueses
E ocidentais, em arte.

Do Jardim de S. Lázaro chegava
Um apelo de tília e de açucena
E aquele aroma, cálido, embalava
A carne, loira num, no outro, morena.

Roma, Londres, Paris (talvez Nínive…)
Cercavam-nos então.
E aquelas ilusões
que nunca tive
Poisavam-me na mão…

Ó lucidez da nossa inconsciência!
Voz que, no azul do ar, se diluía…

– Eugénio? – Pedro. (Eugénio – a inteligência;
   Pedro – o instinto).

E despontava o dia!

Teus versos eram, sempre, madrugada
Diáfana, tão pura!
E eu dizia-te adeus, de alma lavada,
Mergulhando, depois, na noite escura…

Poema de Pedro Homem de Melo, 
ilustração de Artur Bual, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”


Estúdio Raposa