quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

CARTA AO EX






Toda a gente tem um EX. Um ex namorado(a), um ex amigo (a), um ex patrão (a), um ex vizinho (a). Toda a gente já tirou da sua vida alguém por vontade própria. É dessa vontade que falo. Aqui, nesta reflexão, não cabe a morte. Falo de outra morte, daquela em que nos separarmos do outro, que continua vivo, mas que morre na nossa rotina – sai da nossa vida e, saindo, leva com ele (a) a vida que, até então, conhecíamos.

Toda a gente é EX de alguém. Toda a gente é agora o fim, onde já foi o início, é agora o velho, onde já foi o novo, é agora passado onde já foi presente.

Toda a gente é EX e tem um EX.

Até aqui, tudo bem. Ou tudo mal, durante um tempo mas depois, fica tudo bem. Fica sempre tudo bem. É incrível como a perda que nos é avassaladora naquele momento é, depois, o mais correto e o mais sensato. É incrível como percebemos depois que, aquele que saiu (e que parece que levou metade de nós com ele), nada levou a não ser a vida que já não queremos. Nada levou a não ser uma mala de recordações e, essencialmente, a tralha que já nos estorvava – sonhos que não eram os nossos, vontades que não eram as nossas, planos que não eram mais os nossos. Que até foram, por capricho ou pica do momento, mas que já não são mais.

Se, na altura do desmame, escrevermos uma carta ao EX, certamente acabaremos por nos arrepender algum tempo depois. Nunca devemos comunicar com o EX no rescaldo da separação, que é como quem diz, na ressaca da perda. Se o fizermos, é melhor estarmos conscientes de que não somos nós que falamos. É o nosso ego ferido que grita por mais um bocadinho de conformidade.

Dói arrancar o penso, claro que dói. Dói e gritamos porque estava ali há tanto tempo e parece impossível vermos o nosso corpo sem aquela marca, sem aquele penso. A marca que achamos que já nos caracteriza. É claro que dói. Mas a dor é sempre maior quando ampliada pelos nossos medos, a dor é sempre maior quando a antecipamos. Na prática, não dói assim tanto. Nunca dói assim tanto. Finalmente, quando arrancamos o penso e choramos com a dor, acabamos por acrescentar outro choro ao choro: choramos com a dor de consciência de não o termos arrancado mais cedo. Choramos quando percebemos que afinal, estamos bem sozinhos, afinal, sobrevivemos àquela perda, afinal, não foi perda – foi acrescento.

Choramos sempre quando percebemos que doeu muito mais manter o penso, tanto tempo e por cobardia, do que arrancá-lo. Mas não faz mal. O choro acalma quando entendemos que, o que importa, é que acabámos por ter coragem de o fazer.

E agora sim, depois das lágrimas, do desmame, da dor, já podemos escrever ao nosso EX a agradecer as aprendizagens, a desejar-lhe toda a felicidade do mundo e a dizer que está tudo bem e que não precisa de devolver nada. Não há nada para devolver, o nosso EX não nos levou nada – porque continuamos inteiros.



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