domingo, 17 de janeiro de 2016

AS MULHERES QUE QUEBRARAM TABUS




Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte. Quem não as conhece? As estrelas de "O Sexo e a Cidade" mudaram mentalidades, deram confiança às mulheres e desmistificaram o sexo, além de integrarem um negócio de moda e publicidade de milhões de euros. Quinze anos depois, o legado continua vivo. 

Jn.pt



















Existe um mundo antes e depois de Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte. A ideia pode parecer extremista, mas, em muitos aspetos, as quatro protagonistas de O Sexo e A Cidade revolucionaram a indústria televisiva, a mentalidade de milhões de pessoas e desbravaram caminhos nunca antes trilhados. Na semana em que um dos maiores fenómenos do pequeno ecrã celebra 15 anos desde a sua estreia, em 1998, a NTV avalia o impacto socioeconómico e cultural que tiveram as personagens de Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Cynthia Nixon e Kristin Davis.

Marta Crawford não tem dúvidas. O papel mais importante da série inspirada nos livros de Candace Bushnell e criada por Darren Star foi o da desmistificação do sexo e do comportamento sexual da mulher. "Foi extremamente importante. Estamos a falar de uma série há 15 anos, vista no mundo inteiro, que mostrou uma nova realidade e uma nova vivência das relações, de uma forma distinta daquela que era a mais tradicional, da mulher pacata, passiva, com pouca iniciativa, muito pudica. Estas quatro mulheres têm uma visão da sexualidade muito mais ativa e existe uma nova mulher que aparece nesta altura e que deixa de ter aquelas características mais tradicionais", explica a sexóloga. E acrescenta: "Começou a falar-se de sexualidade de uma forma muito mais livre, aberta, direta, em que a mulher tem o papel que antes só era atribuído ao homem, mais ativo na procura da sexualidade. A série foi um marco histórico. Mesmo o facto delas falarem de comportamentos sexuais no café, logo ao pequeno almoço (risos) quebra a ideia de olhar para o sexo como tabu", explica Marta Crawford à NTV.

O facto de as quatro personagens de O Sexo e a Cidade serem mulheres confiantes e independentes financeiramente também foi fulcral para a mudança de mentalidades. "Todas elas têm carreiras profissionais de sucesso, não vivem à custa de ninguém, umas têm parceiro, outras não. Traduziu muito bem a ideia que se começava a viver em Nova Iorque na altura e outros países, em que as relações já não eram só aquelas tradicionais do "casar e ter filhos". Estas mulheres quebraram esse protocolo. Elas também querem uma relação amorosa onde se sintam felizes e realizadas, toda a gente quer, mas tinham disponibilidade e capacidade de ir à luta e seguir em frente quando as coisas não corriam bem. A série foi uma abertura para uma nova forma de estar, mesmo até pelo tema da homossexualidade que também estava presente, com os amigos delas", acrescenta a apresentadora de 100 Tabus (SIC Mulher).

Ana Garcia Martins, a autora do blogue mais lido em Portugal, A Pipoca Mais Doce, e que já foi apelidada por muitos de Carrie Bradshaw portuguesa, explica que o sucesso gigante da série se deve à sua intemporalidade. "Eu continuo a rever os episódios com frequência, mesmo os da primeira temporada. Vejo e revejo. E é engraçado porque os temas que elas debatiam há 15 anos continuam a ser os mesmíssimos que as mulheres questionam hoje.

A série teve, sem dúvida, um grande condão de colocar as mulheres a falarem publicamente de temas que se calhar antes só falavam no seu íntimo, de forma muito velada, muito discreta. E encerrou uma data de tabus em relação a sexo e a várias outras questões, veio derrubar muitas barreiras. Para as mulheres foi um marco importantíssimo. Qualquer mulher, independentemente do estrato social, da idade ou do que quer que seja, já passou por aquelas situações. Há uma empatia muito grande com as quatro protagonistas e pelo que elas dizem", frisa a jornalista.

Quanto às comparações com a personagem de Sarah Jessica Parker, adianta: "É uma comparação simpática, mas temos que pôr as coisas no devido plano: o ambiente super glamoroso da Carrie em Nova Iorque e o meu em Lisboa. Percebo porque é que as pessoas fazem o paralelismo, porque escrevemos as duas, ela tinha uma crónica e eu também tive várias em jornais, depois toda a envolvência dos sapatos. Somos duas pessoas ligadas à escrita e aos sapatos, mas a comparação fica-se por ai", ri-se Ana Garcia Martins, que criou A Pipoca mais Doce em 2004, ano em que terminou a série norte-americana. Mas a data foi "mera coincidência". "Criei o blogue porque queria ter ali uma plataforma onde pudesse escrever tudo o que me vinha à cabeça. Foi mais por aí, a influência de O Sexo e a Cidade ainda não estava lá", explica.