terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A Transformação do Olhar





E lá estavam elas a bichanar. Uma e outra vez. A apontar (sim, apontar é feio!) para o perfil de facebook de uma mulher que pouco conheciam. A criticar as roupas. A maldizer o corpo. A examinar os comportamentos. A fazer de comadres cheias de verniz.

Pessoas bem formadas não sussurram. Não fazem esquemas para tramar as outras. Não se escondem atrás de camuflagem para atacar. Não perdem tempo com intrigas.

Quando penso no feminismo e em todas as batalhas pelas quais continuamos a lutar: a violência doméstica, as desigualdades entre homens e mulheres, a crítica social em torno do papel da mulher. Todas estas causas me emocionam, apaixonam e, como cidadã, exigem a minha resposta. Tento fazê-lo, tento estar atenta, a mim e às outras.

Mas há, ainda, outras batalhas… menos visíveis, menos reconhecíveis, mais blindadas ao debate: a disputa que algumas mulheres irrompem contra outras mulheres, só porque sim. Aquele duelo perverso embrulhado em competição invejosa. Até quando vamos despender energias contra nós? Precisamos tanto de energia – positiva – para as verdadeiras lutas!

Batalhemos pela igualdade de género, a começar pelo nosso próprio género. A começar pelo respeito que temos umas às outras, por querermos que aquela mulher seja reconhecida pelo seu mérito, sem a pormos em causa, sem desdenharmos as suas conquistas. Não vejo muitos homens a fazerem isso uns com os outros: «fulano X veste-se mal, viste aqueles sapatos? Como será que conseguiu aquele cargo, deve ter sido depois de algumas noitadas com a chefia? Acho mal ele aceitar aquele trabalho fora tendo filhos para cuidar!».

Confesso que já dei por mim a evitar falar ou pensar neste assunto por achar que, ao evocá-lo, estou a dar-lhe força. Talvez porque me faz sentir menos feminista tocar nesta ferida. Talvez porque, como mulher, às vezes, me envergonhe disto. Mas há algo a fazer, há muito a fazer.

Que tal começarmos pela transformação do olhar – esse olhar radiográfico culturalmente embebido – com que nos olhamos umas às outras?

Capazes



(Judite Fidalgo)