quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A GAFFE PODEROSA





A ausência da minha irmã faz de mim uma espécie estranha de testa de ferro ou uma variante absurda de escudo humano.

Quando há uma alteração - por demais minúscula - a qualquer decisão por ela tomada, correm os rapazes e, reverentes, recolhem a minha mais leiga opinião e a minha mais inútil anuência. Desse modo poderão sempre pousar amavelmente as culpas da eventual asneira na idiota da mana, na irresponsável concordância da ruiva ao serviço de Sua Majestade.

Não que me incomode. Apesar de me cansar e ocupar em demasia, sei que todas as correcções são competentes e certeiras ou obedecem a normas previamente estabelecidas.

Retenho, aparentemente, e só nestes momentos, a capacidade de decidir se está correcto um traço, se vale o esforço um risco, se é viável um rabisco, se não entra em colapso e em colisão com o inicialmente previsto, se rompe com o sonhado uma alteração de última hora a uma sentença erguida pela minha irmã.

No entanto, descubro que o poder não é, como é boato, afrodisíaco!

Hoje entrou aqui o mais belo rapaz que por estes corredores rodopia solto.
Tem olhos oblíquos e escuros e um riso branco e cristalino que faz esmagar completamente os guinchos desequilibrados e atolambados que, de quando em vez, vão tentando assombrar-me a vida.

Tem um torso largo de gravata louca, coxas retesadas, grossas e gulosas e um rabo divino preso e asfixiado.

Rodeou, conversou, solicitou, cercou, circundou, circulou, chamou, convidou, torneou, poliu e contornou, só para obter o meu sim relativo à modificação de um pormenor idiota na decisão que lhe deixaram agarrada ao colo.

Estava disposto a lutar por aquilo! Custe o que custar, tenha de dar o que tiver de ser.

Levanta-se descontraído e leve, distraído e fresco, ignorando que a braguilha sorrateira sorria na declaração de intenções.


O poder deixa-me nervosa e demasiado céptica em relação ao desejo que brilha nos olhos mais oblíquos.

Quero ser cortejada apenas porque existo e sem o menor rasto de razões mais fortes.


Disse que NÃO.

A tudo.