domingo, 31 de janeiro de 2016

A GAFFE INTRIGADA





De que são feitos os homens?


Os que nos querem e os que queremos realmente; aqueles que nos fazem indiferentes a qualquer libertação feminista, porque a deixam sem sentido, inútil e escusada; os que nos abraçam como se nos fizessem entrar em catedrais ou em cabanas onde as traves do tecto e do soalho são de madeira cortada, polida e cravada com a própria alma, que depois nos entregam para que a guardemos dentro do peito; os que nos trazem gargalhadas para casa, sonoras gargalhadas, trovejantes gargalhadas, e que não tremem quando trazem lágrimas; aqueles que nos dizem que não leram Pessoa, Eco, Proust ou Lobo Antunes, mas que nos desassossegam sempre que demoram, perdidos no tempo que buscam em nós, entrando tão depressa por essa noite escura, e que sabem de cor, de coração, os nomes de todas as rosas; os que dão nome aos nossos cães e atravessam temporais para os fazer correr atrás da chuva; os que não falam de amor, porque nos deixam acabar todas as frases; aqueles que nos abrigam quando há escuro e monstros dentro dos armários e se deixam recolher nos nossos braços depois do medo que sentem com um ranger de portas carcomidas.

Os que sabem que é a terra, a água e eu as três únicas claridades que conhecem.

De que são feitos os homens que nos amam?






Foto - Richard Prince, 1999