quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

UM NATAL DIFERENTE

Estelle entrou em casa em silêncio. O apartamento estava banhado por aquela atmosfera natalícia que provinha do lado de fora, a cidade era nesta época do ano um mundo inundado de luzes de mil cores, ali dentro da sua casa, sozinha, apenas a sua silhueta se confundia com a claridade vinda de fora, e num bailado de sombras preenchiam o vazio da casa. Já algum tempo que os seus natais eram diferentes, há muito que se habituara a partilhar com os desconhecidos esta época natalícia, mas este ano, este ano tinha sido diferente.
Abriu a porta devagar, pousou o casaco nas costas da cadeira, atirou os sapatos para um canto, sem se preocupar com a desarrumação, a ordenação da casa era coisa que não a preocupava, a prioridade era agora a ordenação dos sentimentos e da alma. Acendeu um cigarro, aspirou longamente o fumo, até este lhe entrar nos pulmões, o cigarro era umas das coisas que ainda não tinha sido proibida de fumar, serviu-se de um copo de whisky velho, sem gelo, e sentou-se no sofá contemplando o silêncio da noite, deixando o líquido deslizar pela garganta, aquecendo-lhe o corpo e embalando o espírito.
Estelle era professora de Francês para Adultos, adorava o seu trabalho, o ensino de uma língua estrangeira para adultos, era uma aprendizagem feita de vivências partilhadas, não se sabia ao certo quem aprendia mais com quem, a professora ensinava a língua do país, os seus usos e costumes, e os alunos partilhavam os usos e os costumes dos seus países de origem. Todos os anos, a escola organizava uma festa natalícia, e nesta altura, era ver a mesa cheia de iguarias de todas as partes do mundo, as conversas centravam-se nas tradições de cada região.
Conhecia assim a tradição dos natais do mundo, mas também fora obrigada a conhecer outros natais, natais feitos de dor e solidão. Os seus últimos natais tinham sido vivenciados entre o espanto e a dúvida, o desespero e a aceitação, desde que um novo inquilino se instalara no seu corpo. Ele entrara assim de mansinho, sem pedir autorização, e ia com o passar do tempo ocupando cada vez mais espaço, cada vez mais tempo, cada vez mais alma, até que um dia, enfim, lhe roubaria o sopro da vida.
Conhecia a tradição dos natais passados nos hospitais, da alegria dos médicos, dos festejos dos enfermeiros, da troca de alimentos entre os doentes que alguns familiares tinha trazido, mas conhecia também, a dor e a solidão no olhar de quem nada tinha, de quem nada recebia, nem sequer a visita de um familiar, eram dias dolorosos aqueles, dias onde as memórias são apenas um estorvo, uma dor a juntar a tantas outras, e onde ainda não há remedio para curar.
Este ano Estelle teve sorte, o novo inquilino tinha sossegado a sua euforia de a possuir e ela pode ficar em casa. O marido há muito tinha partido, não fora capaz de aceitar o espaço que a doença tinha tomado no corpo da sua mulher, os filhos tinham seguido a vida deles, todos longe, realizados e felizes, só podia contar com ela, apenas e só com ela.
“Mas o que somos nós sozinhos?” Questionava-se todos os dias!
Baseada nesta questão pertinente, e sabendo que a vida lhe fugia por entre os dedos como os grãos de areia fina, decidiu fazer um natal diferente. Este poderia ser o último, o derradeiro, aquele em que iria fugir às rotinas e torna-lo num natal especial e único.
Vestiu os seus mais velhos jeans, uma camisola usada, declinou a maquilhagem que era quase obrigada a fazer todos os dias, para esconder as marcas do novo inquilino no seu rosto, e foi passar a noite com os mendigos da cidade.
Juntaram-se todos numa associação, dessas que todos os natais organizam ceias para os desfavorecidos. Estelle nunca percebeu porque é que só apenas nos natais se organizam ceias, mas enfim, isso era agora uma preocupação menor.


Comeu ao lado deles, serviu-lhes comida, partilhou histórias e vivências, riram-se, jogaram jogos de sociedade, dançaram, tiraram fotos…
Nunca se sentira tão feliz e realizada como nesta noite, ali tinha encontrado o verdadeiro sentido da família, aquela que apenas dá e nada pede, tinha enchido a alma de saber, de humildade. Tinha partilhado a sua dor e a sua solidão com aqueles que a vivem no seu quotidiano, tinha recebido amor e partilhado luz, tinha sentido no coração o verdadeiro espírito natalício.
Não sabia quanto tempo lhe restaria ainda para viver, o tumor que se espalhara no corpo, esse inquilino indesejado que lhe ocupara a vida, a casa, o alento, e lhe tomara e alterara por completo todo o seu ser, todo o seu mundo, acabaria um dia por roubar-lhe a existência, mas entretanto, Estelle sabia que em qualquer sítio, em qualquer hora, em qualquer momento, enquanto lhe restasse um sopro que seja de vida, a luz poderia ser partilhada; seja nas ruas de uma cidade embriagada de luxuria, onde apenas se houve os gemidos dos mendigos, ou num hospital inundado de luzes brancas e batas verdes, ali onde a morte espreita a cada minuto atrás das portas e abafa as maiores dores e as maiores solidões. Em qualquer lado onde estivesse, Estelle sabia que haveria de partilhar os seus natais, com os indigentes da vida.
Cansada, aspirou mais uma vez com prazer o fumo do cigarro, saboreou mais uma golada de whisky, e adormeceu com um sorriso no rosto…
São Gonçalves  Bom dia. eu.