terça-feira, 8 de dezembro de 2015

ÚLTIMO POEMA POSSIVELMENTE DE AMOR


Carta

(Vício de poesia blog)

esqueço-te com a terna complacência do silêncio
habitual das horas no seu movimento
e no entanto restou um perfume quase imperceptível
do olhar por uma vez aceite
em mim, um olhar que julguei
fosse o meu amor, a ilusão
de um gesto que olhamos como
se nos pertencesse e no entanto
nos é alheio.
Eu havia contribuído integralmente.
A terra foi por um instante pura
através do teu corpo elástico e pausado.

Último Poema Possivelmente de Amor

recorda
como se os dias não fluíssem em dias
e para ti fosse um nítido jogo de músculos
meu braço no teu corpo    anfiteatro
da mais pura derrota rumo às constelações

eis-me descoberta
de tudo que se arrisca sem limites
construído pela coloração de globos de vidro
iluminados e submersos

para o teu nome
um novo mecanismo de linguagem
para o teu corpo
memória      ciclo perfeito
dos meus desejos de pedra e de violência

tu
única para quem fui      adeus      o homem sem comédia

in Manuel de Castro, Bonsoir, Madame, Alexandria/Língua Morta, Lisboa, 2013.