terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Tudo o que quero é querer-te






Tudo o que quero é querer-te.

As horas trespassam-nos a pele como velha tatuagem e o tempo, esse pródigo e louco cavalo alado, cobre-nos com silenciosas promessas de ir e voltar. Apostamos solidões na mesa do casino; lapidamos solidões nas quatro assoalhadas citadinas que arrendámos mesmo antes de nascer.
Toca o apito para sair, na fábrica do nosso descontentamento; olhamo-nos no meio do fumo, estáticos e sombrios, nos extremos das estradas em que não partimos. Tudo o que quero é querer-te, dividir contigo o sabonete e dar-te sem saberes a palma da minha mão aberta. Trocar de roupa. Cruzar as linhas das mãos. O que quero, tudo o que quero, é querer-te. Querer-te: no espaço que fica entre os teus e os meus textos; equilibrar-me em pontas como a bailarina dos teus olhos, equilibrar-me em terra como os flamingos dos teus dedos. Querer-te e depois partir à descoberta pela tua pele dentro, sem medo de degelos, sem medo de vulcões; Tudo o que quero é querer-te.
Querer-te ainda mais do que te quero.

Olívia Santos