quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O EROTISMO DE ANAÏS NIN :QUANDO O SEXO TAMBÉM É AMOR






No filme Ninfomaníaca, de Lars von Trier, há uma cena em que uma das personagens diz: “O ingrediente secreto do bom sexo é o amor”.

Ao terminar a leitura das 143 páginas de Ladders to Fire ("Fome de Amor". Tradução Marli Berg), escrito em 1930 por Anaïs Nin, tive a impressão de que Trier chegou próximo do segredo, mas quem descobriu a chave e abriu a caixa foi Anaïs Nin.

Simplesmente porque a autora não separa as duas coisas. Nem mesmo quando a atividade dos corpos se dá por pura efervescência de uma noite de bebedeira. A fusão de dois corpos, para ela, é sempre amor. E tem sempre um objetivo comum: mergulhar no outro para morrer imensamente e depois descobrir um novo eu.

Engana-se quem pensa que vai encontrar o erotismo barato de mil tons de cinza em suas linhas. Seu erotismo não é vulgar (no sentido de comum, prosaico). Além de sua prosa extremamente poética (mas sem o excesso das rimas fáceis), Nin nos oferece um microscópio (ou seria caleidoscópio?) que nos faz enxergar o quê possivelmente se esconde por trás do nosso desejo de ser amado, desejado e protegido.

E assim descreve um ato de amor:

“Nenhum mar mais forte que o mar dos sentimentos, em que ela nadava dentro dele, encrespando, nenhuma onda como as ondas do desejo, nenhuma espuma como a espuma do prazer. Nenhuma areia mais morna que a pele e a areia movediça das carícias. Nenhum sol mais poderoso que sol do desejo, nenhuma neve como a neve de sua resistência derretendo em alegrias azuis, em lugar nenhum uma terra tão rica quanto a carne. Ela dormia, caía em transe, estava perdida, sentia-se renovada, abençoada, transpassada pela felicidade, aquietada, queimada, consumida, purificada, nascida e renascida dentro do ventre da baleia da noite”.

E assim descreve um beijo:

“Boca encontrando boca, o prazer batendo como um gongo, uma, duas, três vezes como o bater de asas de grandes pássaros. Os corpos atravessados por um arco-íris de prazer. Pela boca fluíam um dentro do outro e a pequena rua cinzenta deixou de ser um impasse em Montparnasse. O balcão estava agora suspenso sobre o Mediterrâneo, o mar Egeu, os Lagos Italianos e pela boca fluíam e corriam através do mundo”.

Se em “Paris é uma Festa” Ernest Hemingway nos convida a visitar os bastidores da vida artística da década de 20 na cidade luz, em “Fome de Amor” Anaïs Nin nos convida a perceber o que sente (e como reage) um artista quando é queimado por medo, insegurança, desamparo, desejo, amor, paixão, ansiedade.



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