sábado, 26 de dezembro de 2015

Jorge C.Ferreira







Quero o meu caderno de duas linhas, a minha letra certinha e a quadra copiada dum livro de capa feia. Quero o primeiro livro que li sem ser por obrigação. Esse livro que perdi nas mudanças da vida.
Quero os doces da minha Avó. A azáfama das festas de quando era pequeno e acreditava que o menino Jesus me ia deixar alguma coisa no sapatinho que deixava na chaminé antes de me ir deitar. O calor e o amor. Uma braseira de vida.
Quero aquelas manhãs de todas as prendas. Poucas, porque o tempo era outro e o dinheiro era pouco. Patrões avaros, defendidos por um ditador de botas.
Resistentes destas festas, restam dois primos/irmãos da minha Mãe. Depois sou eu o mais velho. A idade já a marcar-me. Estou na fila.
Uma grande alegria: a mesa em que como hoje é a mesma daquele tempo. A mesa que fiz questão de preservar e mandar restaurar. A mesa em que aprendi a comer e onde, por vezes, vejo todos os meus mais velhos sentados de novo a cear connosco.
Tentem ser felizes.


EA 2015-358Jorge C Ferreira.